segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

PARA PENSAR A SALA REFERÊNCIA NA EDUCAÇÃO INFANTIL

 


Uma reflexão recente sobre os materiais e brinquedos na Educação Infantil suscita uma questão igualmente fundamental: a organização, a estética, o mobiliário e a funcionalidade que a sala referência precisa oferecer para que as aprendizagens aconteçam com qualidade.

A sala referência constitui um dos principais espaços de bem-estar onde bebês e crianças vivem suas experiências cotidianas. Trata-se, intencionalmente, de sala referência — e não de sala de aula. Na Educação Infantil, supera-se a lógica da aula tradicional, priorizando experiências, interações e brincadeiras como eixos estruturantes do trabalho pedagógico, conforme indicam as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (BRASIL, 2009).

O espaço, portanto, deve ser compreendido como parte integrante do projeto pedagógico: estudado, planejado e organizado de forma intencional. O ambiente também educa, pois é nele que a memória registra aquilo que se torna significativo, constituindo experiências que permanecem nas lembranças das crianças.

Diante disso, coloca-se uma questão central:

Como compor uma sala referência que atenda às necessidades de bebês e crianças?

A reflexão volta-se para aspectos que estão ao alcance do(a) professor(a) e da equipe pedagógica na qualificação do ambiente, reconhecendo-se que determinadas questões arquitetônicas dependem da gestão institucional e de órgãos responsáveis pelas estruturas físicas. Ainda assim, mesmo diante de limitações — como o tamanho das salas ou o número de crianças — é possível repensar o espaço na perspectiva de oferecer experiências mais qualificadas.

A sala referência é compreendida como um espaço íntimo e de pertencimento: lugar de brincar, explorar, descobrir, investigar, expressar-se e, em alguns casos, descansar. Trata-se de um ambiente que acolhe bebês e crianças diariamente e que precisa ser pensado com intencionalidade ética, política e estética.

As orientações nacionais para a Educação Infantil ressaltam que as práticas cotidianas devem considerar o ambiente como elemento estruturante das experiências educativas (BRASIL; MEC/UFRGS, 2009).

Repensando concepções: espaço, infância e docência

Uma educação contemporânea pressupõe a ressignificação das concepções de criança, aprendizagem e docência na Educação Infantil. Esse movimento implica também um novo olhar sobre o espaço educativo — ainda que tais discussões estejam presentes há décadas nos estudos da área.

Bebês e crianças pequenas aprendem por meio das múltiplas linguagens e das interações estabelecidas com o ambiente, interrogando continuamente o currículo vivido (RICHTER; BARBOSA, 2010). Assim, o espaço deixa de ser apenas cenário e passa a atuar como participante ativo do processo educativo.

A sala precisa de mesa e cadeira para o(a) professor(a)?

Quando o adulto permanece sentado enquanto as crianças estão em atividade, torna-se necessário repensar a organização pedagógica. O professor da Educação Infantil atua na proximidade, observando, registrando, acompanhando e realizando intervenções quando necessárias. Sua presença exige disponibilidade, atenção e mobilidade no ambiente.

Nesse sentido, o mobiliário deve priorizar as necessidades das crianças, evitando a centralidade do adulto.

É necessário ter mesas e cadeiras para todas as crianças?

A organização baseada em mesas e cadeiras para todos tende a reforçar práticas homogêneas, nas quais todas as crianças realizam a mesma proposta simultaneamente. Avanços pedagógicos apontam para contextos de aprendizagem diversificados, nos quais as crianças escolhem onde e como participar das experiências.

Não se trata apenas de retirar móveis, mas de qualificar o espaço com intencionalidade pedagógica.

Grandes armários são necessários dentro da sala?

Materiais destinados às crianças precisam estar acessíveis. A autonomia desenvolve-se também pela possibilidade de escolha e exploração. Armários excessivos ocupam espaços que poderiam ser destinados às experiências infantis.

Prateleiras baixas e materiais visíveis favorecem a exploração, a autonomia e o protagonismo das crianças.

A sala precisa de decoração?

A escola não deve assumir características de espaços meramente decorativos. Personagens comerciais, excesso de cores e enfeites prontos frequentemente substituem aquilo que deveria ocupar o ambiente: as produções, investigações e processos vivenciados pelas próprias crianças.

O espaço educativo deve narrar experiências reais.

O espaço como educador

Diversas áreas do conhecimento — como arquitetura, design, psicologia e educação — dedicam-se ao estudo dos ambientes. Na Educação Infantil, essa discussão ganha centralidade ao reconhecer-se que o espaço comunica valores e concepções pedagógicas.

Inspiradas por abordagens pedagógicas como Montessori e Reggio Emilia, compreende-se o ambiente como um “terceiro educador”, parceiro do professor e das crianças no cotidiano educativo.

Russo (2007) destaca que educar na infância não se limita à transmissão de conteúdos, mas à criação de condições para que experiências significativas aconteçam.

Ambientes visualmente equilibrados, organizados e esteticamente coerentes favorecem concentração, autonomia e envolvimento das crianças.

O que o ambiente comunica às crianças?

A organização de um espaço pensado para bebês e crianças comunica, de forma não verbal, reconhecimento, pertencimento e confiança em suas capacidades.

Móveis acessíveis promovem autonomia; materiais naturais ampliam experiências sensoriais; espaços livres favorecem movimento e exploração. O ambiente revela, portanto, concepções pedagógicas.

Princípios para pensar a sala referência

Considerando os princípios éticos, estéticos e políticos das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (BRASIL, 2009), a sala referência deve:

·       promover liberdade de escolha e movimento;

·       contemplar múltiplas linguagens;

·       acolher singularidades e ritmos;

·       favorecer autonomia e cooperação;

·       valorizar a diversidade cultural e artística;

·       incentivar a participação das crianças nas decisões;

·       fortalecer identidade, convivência e escuta.

Na prática, isso significa:

·       mobiliários baixos e acessíveis;

·       materiais visíveis organizados em cestas ou recipientes naturais;

·       paredes habitadas pelos processos das crianças;

·       espaço livre para movimento;

·       uso intencional das cores;

·       livros de qualidade ao alcance das crianças;

·       contextos de aprendizagem variados e desafiadores;

·       participação das crianças no cuidado com o ambiente;

·       equilíbrio entre segurança e autonomia;

·       conexão com a natureza por meio de plantas e elementos naturais.

A transformação do ambiente modifica comportamentos, descentraliza a figura do adulto e fortalece o protagonismo infantil.

Um convite à reflexão

Não existe solução única ou modelo ideal. Entre o ideal, o real e o possível, cabe aos profissionais da Educação Infantil refletir, pesquisar e recriar os ambientes educativos.

A renovação do espaço, sem a transformação das práticas pedagógicas, não garante qualidade educativa. A concepção de criança, aprendizagem e educação precisa caminhar articulada à concepção de espaço.

Pensar a sala referência significa reconhecer a complexidade da Educação Infantil e compreender que pequenas mudanças podem transformar profundamente as experiências vividas pelas crianças.

 

Referências

BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Parecer CNE/CEB nº 05/2009. Revisão das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil. Brasília, 2009.

BRASIL; MEC/UFRGS. Práticas cotidianas na Educação Infantil: bases para a reflexão sobre as orientações curriculares. Brasília, 2009.

RICHTER, Sandra Regina Simonis; BARBOSA, Maria Carmen Silveira. Os bebês interrogam o currículo: as múltiplas linguagens na creche. Revista Educação, Santa Maria, v. 35, p. 85-96, 2010.

RUSSO, Danilo. De como ser professor sem dar aulas na escola da infância. In: FARIA, Ana Lúcia Goulart; MELLO, Suely Amaral (Orgs.). Territórios da infância: linguagens, tempos e relações para uma pedagogia para as crianças pequenas. Araraquara: Junqueira & Marin, 2007.

Nenhum comentário:

Postar um comentário