Uma
reflexão recente sobre os materiais e brinquedos na Educação Infantil suscita
uma questão igualmente fundamental: a organização, a estética, o mobiliário e a
funcionalidade que a sala referência precisa oferecer para que as aprendizagens
aconteçam com qualidade.
A
sala referência constitui um dos principais espaços de bem-estar onde bebês e
crianças vivem suas experiências cotidianas. Trata-se, intencionalmente, de sala
referência — e não de sala de aula. Na Educação Infantil, supera-se a lógica da
aula tradicional, priorizando experiências, interações e brincadeiras como
eixos estruturantes do trabalho pedagógico, conforme indicam as Diretrizes
Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (BRASIL, 2009).
O
espaço, portanto, deve ser compreendido como parte integrante do projeto
pedagógico: estudado, planejado e organizado de forma intencional. O ambiente
também educa, pois é nele que a memória registra aquilo que se torna
significativo, constituindo experiências que permanecem nas lembranças das
crianças.
Diante
disso, coloca-se uma questão central:
Como compor uma sala referência que atenda às necessidades de bebês
e crianças?
A
reflexão volta-se para aspectos que estão ao alcance do(a) professor(a) e da equipe
pedagógica na qualificação do ambiente, reconhecendo-se que determinadas
questões arquitetônicas dependem da gestão institucional e de órgãos
responsáveis pelas estruturas físicas. Ainda assim, mesmo diante de limitações
— como o tamanho das salas ou o número de crianças — é possível repensar o
espaço na perspectiva de oferecer experiências mais qualificadas.
A
sala referência é compreendida como um espaço íntimo e de pertencimento: lugar
de brincar, explorar, descobrir, investigar, expressar-se e, em alguns casos,
descansar. Trata-se de um ambiente que acolhe bebês e crianças diariamente e
que precisa ser pensado com intencionalidade ética, política e estética.
As
orientações nacionais para a Educação Infantil ressaltam que as práticas
cotidianas devem considerar o ambiente como elemento estruturante das
experiências educativas (BRASIL; MEC/UFRGS, 2009).
Repensando concepções: espaço, infância e docência
Uma
educação contemporânea pressupõe a ressignificação das concepções de criança,
aprendizagem e docência na Educação Infantil. Esse movimento implica também um
novo olhar sobre o espaço educativo — ainda que tais discussões estejam
presentes há décadas nos estudos da área.
Bebês
e crianças pequenas aprendem por meio das múltiplas linguagens e das interações
estabelecidas com o ambiente, interrogando continuamente o currículo vivido
(RICHTER; BARBOSA, 2010). Assim, o espaço deixa de ser apenas cenário e passa a
atuar como participante ativo do processo educativo.
A sala precisa de mesa e cadeira para o(a)
professor(a)?
Quando
o adulto permanece sentado enquanto as crianças estão em atividade, torna-se
necessário repensar a organização pedagógica. O professor da Educação Infantil
atua na proximidade, observando, registrando, acompanhando e realizando
intervenções quando necessárias. Sua presença exige disponibilidade, atenção e
mobilidade no ambiente.
Nesse
sentido, o mobiliário deve priorizar as necessidades das crianças, evitando a centralidade
do adulto.
É necessário ter mesas e cadeiras para todas as
crianças?
A
organização baseada em mesas e cadeiras para todos tende a reforçar práticas
homogêneas, nas quais todas as crianças realizam a mesma proposta
simultaneamente. Avanços pedagógicos apontam para contextos de aprendizagem
diversificados, nos quais as crianças escolhem onde e como participar das
experiências.
Não
se trata apenas de retirar móveis, mas de qualificar o espaço com
intencionalidade pedagógica.
Grandes armários são necessários dentro da sala?
Materiais
destinados às crianças precisam estar acessíveis. A autonomia desenvolve-se
também pela possibilidade de escolha e exploração. Armários excessivos ocupam
espaços que poderiam ser destinados às experiências infantis.
Prateleiras
baixas e materiais visíveis favorecem a exploração, a autonomia e o
protagonismo das crianças.
A sala precisa de decoração?
A
escola não deve assumir características de espaços meramente decorativos.
Personagens comerciais, excesso de cores e enfeites prontos frequentemente
substituem aquilo que deveria ocupar o ambiente: as produções, investigações e
processos vivenciados pelas próprias crianças.
O
espaço educativo deve narrar experiências reais.
O espaço como educador
Diversas
áreas do conhecimento — como arquitetura, design, psicologia e educação —
dedicam-se ao estudo dos ambientes. Na Educação Infantil, essa discussão ganha
centralidade ao reconhecer-se que o espaço comunica valores e concepções
pedagógicas.
Inspiradas
por abordagens pedagógicas como Montessori e Reggio Emilia, compreende-se o
ambiente como um “terceiro educador”, parceiro do professor e das crianças no
cotidiano educativo.
Russo
(2007) destaca que educar na infância não se limita à transmissão de conteúdos,
mas à criação de condições para que experiências significativas aconteçam.
Ambientes
visualmente equilibrados, organizados e esteticamente coerentes favorecem
concentração, autonomia e envolvimento das crianças.
O que o ambiente comunica às crianças?
A
organização de um espaço pensado para bebês e crianças comunica, de forma não
verbal, reconhecimento, pertencimento e confiança em suas capacidades.
Móveis
acessíveis promovem autonomia; materiais naturais ampliam experiências
sensoriais; espaços livres favorecem movimento e exploração. O ambiente revela,
portanto, concepções pedagógicas.
Princípios para pensar a sala referência
Considerando
os princípios éticos, estéticos e políticos das Diretrizes Curriculares
Nacionais para a Educação Infantil (BRASIL, 2009), a sala referência deve:
·
promover
liberdade de escolha e movimento;
·
contemplar
múltiplas linguagens;
·
acolher
singularidades e ritmos;
·
favorecer
autonomia e cooperação;
·
valorizar
a diversidade cultural e artística;
·
incentivar
a participação das crianças nas decisões;
·
fortalecer
identidade, convivência e escuta.
Na prática, isso significa:
·
mobiliários
baixos e acessíveis;
·
materiais
visíveis organizados em cestas ou recipientes naturais;
·
paredes
habitadas pelos processos das crianças;
·
espaço
livre para movimento;
·
uso
intencional das cores;
·
livros
de qualidade ao alcance das crianças;
·
contextos
de aprendizagem variados e desafiadores;
·
participação
das crianças no cuidado com o ambiente;
·
equilíbrio
entre segurança e autonomia;
·
conexão
com a natureza por meio de plantas e elementos naturais.
A
transformação do ambiente modifica comportamentos, descentraliza a figura do
adulto e fortalece o protagonismo infantil.
Um convite à reflexão
Não
existe solução única ou modelo ideal. Entre o ideal, o real e o possível, cabe
aos profissionais da Educação Infantil refletir, pesquisar e recriar os
ambientes educativos.
A
renovação do espaço, sem a transformação das práticas pedagógicas, não garante
qualidade educativa. A concepção de criança, aprendizagem e educação precisa
caminhar articulada à concepção de espaço.
Pensar
a sala referência significa reconhecer a complexidade da Educação Infantil e
compreender que pequenas mudanças podem transformar profundamente as
experiências vividas pelas crianças.
Referências
BRASIL.
Conselho Nacional de Educação. Parecer
CNE/CEB nº 05/2009. Revisão das Diretrizes Curriculares
Nacionais para a Educação Infantil. Brasília, 2009.
BRASIL;
MEC/UFRGS. Práticas
cotidianas na Educação Infantil: bases para a reflexão sobre as orientações
curriculares. Brasília, 2009.
RICHTER,
Sandra Regina Simonis; BARBOSA, Maria Carmen Silveira. Os bebês interrogam o
currículo: as múltiplas linguagens na creche. Revista Educação, Santa Maria, v. 35, p.
85-96, 2010.
RUSSO,
Danilo. De como ser professor sem dar aulas na escola da infância. In: FARIA,
Ana Lúcia Goulart; MELLO, Suely Amaral (Orgs.). Territórios da infância: linguagens, tempos e
relações para uma pedagogia para as crianças pequenas. Araraquara:
Junqueira & Marin, 2007.

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