terça-feira, 16 de dezembro de 2025

OS QUE FAZEM A DIFERENÇA: 5% OU 95%

 

Tivemos uma aula de Fisiologia na escola de medicina logo após a Semana da Pátria. Como a maioria dos alunos havia viajado aproveitando o feriado prolongado, todos estavam ansiosos para contar as novidades aos colegas e a excitação era geral.

Um velho professor entrou na sala e imediatamente percebeu que teria trabalho para conseguir silêncio. Com grande dose de paciência, tentou começar a aula, mas você acha que minha turma correspondeu? Que nada.

Com certo constrangimento, o professor tornou a pedir silêncio, educadamente. Não adiantou. Ignoramos a solicitação e continuamos firmes na conversa. Foi aí que o velho professor perdeu a paciência e deu a maior bronca que eu já presenciei. Veja o que ele disse:

“Prestem atenção porque eu vou falar isso uma única vez”, disse, levantando a voz. Um silêncio carregado de culpa se instalou em toda a sala e o professor continuou:

“Desde que comecei a lecionar, isso já faz muitos anos, descobri que nós, professores, trabalhamos apenas com 5% dos alunos de uma turma. Em todos esses anos, observei que, a cada cem alunos, apenas cinco são realmente aqueles que fazem alguma diferença no futuro; apenas cinco se tornam profissionais brilhantes e contribuem de forma significativa para melhorar a qualidade de vida das pessoas. Os outros 95% servem apenas para fazer volume; são medíocres e passam pela vida sem deixar nada de útil.

O interessante é que esta percentagem vale para o mundo todo. Se vocês prestarem atenção, notarão que de cem professores, apenas cinco são aqueles que fazem a diferença. De cem garçons, apenas cinco são excelentes; de cem motoristas de táxi, apenas cinco são verdadeiros profissionais; e podemos generalizar ainda mais: de cem pessoas, apenas cinco são verdadeiramente especiais.

É uma pena muito grande não termos como separar estes 5% do resto, pois se isso fosse possível, eu deixaria apenas os alunos especiais nesta sala e colocaria os demais para fora. Então, teria o silêncio necessário para dar uma boa aula e dormiria tranquilo sabendo ter investido nos melhores. Mas, infelizmente, não há como saber quais de vocês são estes alunos. Só o tempo é capaz de mostrar isso. Portanto, terei de me conformar e tentar dar uma aula para os alunos especiais, apesar da confusão que estará sendo feita pelo resto. Claro que cada um de vocês sempre pode escolher a qual grupo pertencerá. Obrigado pela atenção e vamos à aula de...”

Nem preciso dizer o silêncio que ficou na sala e o nível de atenção que o professor conseguiu após aquele discurso. Aliás, a bronca tocou fundo em todos nós, pois minha turma teve um comportamento exemplar em todas as aulas de Fisiologia durante todo o semestre; afinal, quem gostaria de, espontaneamente, ser classificado como fazendo parte do resto?

Hoje não me lembro de muita coisa das aulas de Fisiologia, mas a bronca do professor eu nunca mais esqueci. Para mim, aquele professor foi um dos 5% que fizeram a diferença em minha vida. De fato, percebi que ele tinha razão e, desde então, tenho feito de tudo para ficar sempre no grupo dos 5%. Mas, como ele disse, não há como saber se estamos indo bem ou não; só o tempo dirá a que grupo pertencemos. Contudo, uma coisa é certa: se não tentarmos ser especiais em tudo que fazemos, se não tentarmos fazer em tudo o melhor possível, seguramente sobraremos na turma do resto.

Autor desconhecido

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

MAIORIA APOIA, MAS A PRÁTICA FALHA: O PARADOXO DA LEITURA NA PRIMEIRA INFÂNCIA

 


Você sabia que quase a totalidade dos brasileiros concorda que ler para uma criança é fundamental? Contudo, entre o "achar importante" e o "efetivamente ler", existe um abismo preocupante.

Dados históricos da Fundação Itaú Social revelam que 96% dos brasileiros consideram o incentivo à leitura importante ou muito importante para crianças de até 5 anos. No entanto, a prática não acompanha o discurso: historicamente, apenas 37% dos adultos costumam ler livros ou histórias para os pequenos.

O cenário atual é ainda mais desafiador. A 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil (2024) apontou uma queda no número geral de leitores no país, e dados recentes indicam que cerca de 24% das crianças de até 5 anos não possuem nenhum livro infantil em casa.

Por que existe essa distância tão grande entre o que desejamos para nossas crianças e o que realmente fazemos?

A importância percebida vs. a realidade

O objetivo dessas pesquisas não é apenas medir números, mas entender o envolvimento do adulto. A leitura na primeira infância é uma ferramenta poderosa para garantir os direitos da criança, funcionando como uma alavanca para o desenvolvimento social e cognitivo.

Quando questionados sobre o "porquê" de incentivar a leitura, os brasileiros têm a resposta na ponta da língua:

·       Desenvolvimento Intelectual: Acreditam que deixa a criança mais inteligente.

·       Raciocínio e Curiosidade: Estimula a capacidade de pensar e descobrir o novo.

·       Hábito e Cultura: Ajuda na formação educacional sólida.

Curiosamente, o "desempenho no mercado de trabalho" é pouco citado. O foco do brasileiro, corretamente, está no desenvolvimento humano da criança agora.

O Ciclo da (falta de) Leitura

Um dado revelador ajuda a explicar a baixa adesão à leitura em voz alta: a repetição de padrões.

Mais da metade dos entrevistados não teve a experiência de alguém lendo para eles quando eram crianças. Hoje, esses mesmos adultos gostariam que tivesse sido diferente. Existe um desejo de quebra de ciclo, mas a falta de "saber como fazer" ou a falta de hábito ainda pesam.

Ponto de atenção: Quanto mais um adulto se envolve com a leitura, mais ele se compromete com a educação dos filhos e se torna mais exigente por uma escola pública de qualidade.

 

Os mitos que impedem a leitura

Além da falta de hábito, existem crenças equivocadas que afastam os pais dos livros. Uma parcela dos entrevistados acredita que crianças de até 5 anos:

1.   Não têm maturidade para entender histórias.

2.   Deveriam apenas "brincar" nessa idade.

3.   Podem "enjoar" de estudar se forem estimuladas muito cedo.

Isso é um grande equívoco. A leitura é uma forma de brincar.

Para a criança pequena, o livro é um brinquedo. Ela se diverte com as cores, com a voz do adulto fazendo personagens e com a sonoridade das palavras. É um momento de vínculo, afeto e descoberta, não uma "aula" rígida. Basta observar como elas pedem para repetir a mesma história mil vezes: isso é o prazer lúdico em ação.

Como mudar essa estatística hoje?

Não é preciso ser um grande orador ou ter uma biblioteca gigante. A mudança começa com pequenos gestos:

·       Comece cedo: Bebês adoram ouvir a voz dos pais, mesmo sem entender as palavras.

·       Deixe o livro acessível: O livro deve estar ao alcance da mão da criança, junto com os brinquedos.

·       Seja o exemplo: As crianças imitam o que veem. Se elas virem você com um livro, ficarão curiosas.

A leitura é a porta de entrada para um futuro com mais oportunidades. Que tal transformar a estatística de hoje em uma história lida esta noite?

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

A ALFABETIZAÇÃO PRECOCE E O RESPEITO AO TEMPO DA INFÂNCIA

 

Uma análise sob a ótica da Pedagogia Waldorf sobre os processos de aprendizagem e o desenvolvimento infantil.



Alfabetizar precocemente pode significar empurrar a criança para o mundo adulto antes do tempo. Embora seja tecnicamente possível ensinar uma criança de 5 ou 6 anos a ler, precisamos questionar: essa alfabetização será significativa? Quais comprometimentos essa aceleração pode trazer?

Frequentemente, vemos pais preocupados com o futuro acadêmico de filhos ainda na primeira infância. O brincar é visto como mero lazer, enquanto a preparação para a "competição do mundo" torna-se o foco. Contudo, é justamente no brincar livre que a criança desenvolve competências e uma autoconfiança raramente encontrada até mesmo em adultos bem-sucedidos.

A Visão da Pedagogia Waldorf

Com mais de 100 anos de história e milhares de instituições pelo mundo, a Pedagogia Waldorf, fundamentada na Antroposofia de Rudolf Steiner, traz um olhar diferenciado. A antropologia antroposófica reconhece que os primeiros sete anos de vida exigem um enorme dispêndio de energia para a constituição física — evidenciado, por exemplo, pela troca da dentição.

Exigir um esforço intelectual abstrato (como a alfabetização precoce) retira forças que deveriam estar dedicadas ao desenvolvimento físico e sensorial. É um "gasto" que pode fazer falta na saúde e vitalidade futura.

O Desenho como Linguagem Natural

Para a criança pequena, o código alfabético é estéril e abstrato. Sua conexão real com o mundo se dá através da imagem. Podemos comparar isso à história da humanidade:

·       Hieróglifos Egípcios: Representação direta da realidade (desenho).

·       Escrita Fenícia: O surgimento do fonema abstrato, distanciando-se da imagem.

O desenho infantil é a comunicação natural. Ele revela o universo interior da criança com um código que lhe é próprio. É por isso que, nas escolas Waldorf, a introdução às letras ocorre de forma lenta e gradual a partir dos 6 ou 7 anos, nascendo artisticamente do próprio desenho.

O Papel do Educador

Para que a alfabetização seja efetiva, ela precisa ter vínculo afetivo. O professor deve conhecer o desenvolvimento humano e organizar o ensino privilegiando a brincadeira, o canto e a dança. Entendemos o brincar não apenas como lazer, mas como o princípio lúdico que ressignifica o ensino-aprendizagem, trazendo alegria e seriedade ao processo de descoberta do mundo.

 


 

Adaptado de TONUCCI, (2008). Charge de 1970 e a escola do Século XXI