O
letramento matemático na Educação Infantil compreende um processo formativo que
ultrapassa a aprendizagem mecânica de números e operações, constituindo-se como
a inserção da criança em práticas sociais que envolvem a matemática enquanto
linguagem cultural, simbólica e interpretativa do mundo. Nessa perspectiva, a
criança é reconhecida como sujeito ativo na construção de conhecimentos,
utilizando conceitos matemáticos para observar, interpretar, comunicar e agir
em diferentes situações do cotidiano.
O
Decreto nº 12.686/2025, ao instituir diretrizes nacionais voltadas à qualidade
e equidade educacional, reforça a necessidade de práticas pedagógicas
inclusivas, contextualizadas e fundamentadas na garantia de oportunidades
equitativas de aprendizagem desde a primeira etapa da Educação Básica. Em
consonância, a Política Nacional de Qualidade e Equidade na Educação Infantil destaca
a importância de ambientes educativos que promovam investigações, interações e
múltiplas linguagens, entre elas a matemática.
Nesse
contexto, a intencionalidade pedagógica assume papel central: o professor deixa
de atuar como transmissor de conteúdos e passa a organizar contextos
investigativos nos quais a matemática emerge de forma significativa, lúdica e
socialmente situada.
2. Campos de Experiência e Percurso Investigativo
As
diretrizes curriculares atuais reconhecem a criança como sujeito de direitos,
curiosa, investigativa e produtora de cultura. O letramento matemático
desenvolve-se quando a criança explora o ambiente, formula hipóteses,
estabelece relações e constrói significados a partir das experiências vividas.
Nos
Campos de Experiência, especialmente em “Espaços, tempos, quantidades, relações
e transformações”, a matemática manifesta-se nas ações cotidianas: comparar,
medir, organizar, classificar, estimar e resolver problemas reais.
A
atuação docente consiste em acompanhar e ampliar o percurso investigativo
infantil, formulando perguntas abertas que incentivem o raciocínio lógico, a
argumentação e a autonomia intelectual. Conforme orienta a Política Nacional de
Qualidade e Equidade na Educação Infantil, a prática pedagógica deve assegurar
contextos que favoreçam a participação ativa das crianças, respeitando suas
singularidades e promovendo equidade nos processos de aprendizagem.
3. Números e Sistema de Numeração na Educação Infantil
O
trabalho com números na infância deve priorizar a construção de significados,
diferenciando a simples recitação da sequência numérica da compreensão da
contagem como correspondência entre elementos e quantidades.
3.1
Contagem significativa
A
criança avança quando compreende que cada número representa uma quantidade
específica, estabelecendo relações entre objetos e numerais em situações
concretas.
3.2
Funções sociais do número
Em
consonância com a BNCC e o Currículo Paulista, o número deve ser explorado em
seus diferentes usos sociais, tais como:
- · número
como código (telefones, endereços);
- · número
como ordem (posição em filas ou jogos);
- · número
como medida (tempo, altura, peso);
- · número
como quantidade (distribuições e comparações).
3.3
Sistema de Numeração Decimal
A
introdução ao sistema decimal ocorre por meio de experiências manipulativas e
contextualizadas, envolvendo agrupamentos, comparações e organização de
coleções, sem antecipação de formalizações próprias do Ensino Fundamental,
respeitando os princípios do desenvolvimento infantil previstos na Resolução
CNE/CEB nº 7/2025.
4. Propostas Didáticas e Registros na Construção do Pensamento
Matemático
A
documentação pedagógica constitui elemento essencial para acompanhar o
desenvolvimento do pensamento matemático infantil.
4.1
Representações numéricas
Antes
da escrita convencional dos números, as crianças elaboram registros próprios —
desenhos, marcas gráficas, símbolos e esquemas — que devem ser reconhecidos como
formas legítimas de expressão e raciocínio matemático.
4.2
Situações-problema contextualizadas
O
letramento matemático fortalece-se por meio de desafios reais e significativos,
tais como:
- · organização
de materiais;
- · distribuição
de objetos;
- · planejamento
de brincadeiras;
- · resolução
de situações cotidianas (ex.: quantidade de copos necessária para o grupo).
Essas
situações favorecem a elaboração de estratégias pessoais, a argumentação e a
construção coletiva do conhecimento, alinhando-se aos princípios da equidade e
da aprendizagem ativa defendidos pelo Decreto nº 12.686/2025.
5. Planejamento Pedagógico e Avaliação Formativa
5.1
Planejamento intencional e contextualizado
O
planejamento docente deve considerar os interesses das crianças, seus contextos
socioculturais e as experiências do cotidiano, integrando práticas como:
- · jogos
matemáticos;
- · uso
de calendários;
- · organização
de rotinas;
- · partilha
de alimentos;
- · exploração
de espaços e materiais.
A
intencionalidade pedagógica assegura que a matemática esteja presente nas
experiências diárias sem escolarização precoce ou práticas mecanizadas.
5.2
Avaliação na Educação Infantil
Conforme
a Resolução CNE/CEB nº 7/2025 e a Política Nacional de Qualidade e Equidade na
Educação Infantil, a avaliação possui caráter formativo, processual e
qualitativo, fundamentada em:
- · observação
sistemática;
- · registros
pedagógicos;
- · documentação
das hipóteses infantis;
- · acompanhamento
do desenvolvimento individual.
Não
se utilizam provas ou classificações, mas análises que orientam o planejamento
e garantem o direito de aprendizagem de todas as crianças.
6. Princípios Metodológicos do Letramento Matemático
A
prática pedagógica orientada pelas políticas educacionais atuais sustenta-se em
três princípios estruturantes:
6.1
Matemática na vida cotidiana
A
aprendizagem parte de situações reais, utilizando elementos do contexto
infantil, como idade, datas comemorativas, quantidades familiares e experiências
vividas.
6.2
O valor do erro como processo formativo
As
incorreções são compreendidas como parte constitutiva da aprendizagem,
revelando hipóteses e modos de pensar das crianças, favorecendo intervenções
pedagógicas significativas.
6.3
Protagonismo infantil
A
criança assume papel ativo na investigação e resolução de problemas, enquanto o
professor atua como mediador, organizador de experiências e incentivador do
pensamento crítico.
Considerações Finais
O
letramento matemático na Educação Infantil, à luz da BNCC, do Currículo
Paulista, do Decreto nº 12.686/2025, da Resolução CNE/CEB nº 7/2025 e da
Política Nacional de Qualidade e Equidade na Educação Infantil, consolida-se
como prática pedagógica que promove equidade, participação e aprendizagem
significativa. Ao integrar a matemática às experiências cotidianas, respeitando
os tempos e modos de aprender das crianças, a escola contribui para a formação
de sujeitos críticos, investigativos e capazes de interpretar o mundo por meio
de múltiplas linguagens.

