quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

A GESTÃO DEMOCRÁTICA EM AÇÃO: O PAPEL DO DIRETOR NO PPP E NO PLANO ESCOLAR

 

O Diretor como Articulador do Projeto Político-Pedagógico

A direção escolar ocupa posição estratégica na construção, implementação e acompanhamento do Projeto Político-Pedagógico (PPP) e do Plano Escolar, assumindo papel fundamental na articulação entre gestão administrativa, pedagógica e participativa. Nesse contexto, a atuação da direção ultrapassa funções burocráticas, configurando-se como liderança educativa comprometida com a transformação institucional e com a qualidade social da educação.

De acordo com Ilma Passos Alencastro Veiga, o Projeto Político-Pedagógico constitui-se como um processo coletivo de construção da identidade da escola, orientado por princípios democráticos e pela participação dos diferentes sujeitos escolares (VEIGA, 2001). Assim, a direção assume papel insubstituível ao promover espaços de diálogo e garantir condições organizacionais para que o planejamento escolar seja fruto de decisões compartilhadas.

Embora a gestão escolar envolva a delegação de responsabilidades às equipes pedagógicas e docentes, cabe à direção estabelecer diretrizes gerais fundamentadas na análise coletiva da realidade escolar. Conforme aponta Libâneo (2015), a gestão democrática pressupõe coordenação articuladora, capaz de integrar ações pedagógicas, administrativas e comunitárias em torno de objetivos educacionais comuns. Nesse sentido, a direção contribui com uma visão global do processo educativo, essencial para orientar o planejamento institucional.

A experiência acumulada ao longo da trajetória profissional também constitui elemento relevante para a atuação diretiva. Tal experiência possibilita a observação crítica dos processos escolares e favorece a tomada de decisões fundamentadas em dados pedagógicos e institucionais. Para Lück (2009), o gestor escolar precisa desenvolver competências relacionadas à liderança pedagógica, ao acompanhamento sistemático e à avaliação permanente das ações educativas.

Planejamento Estratégico: Do Compromisso Coletivo à Avaliação Prática

O planejamento educacional somente adquire sentido quando associado ao compromisso coletivo de sua execução. Conforme defende Gandin (2016), planejar é um ato político e pedagógico que implica responsabilidade compartilhada e acompanhamento contínuo das ações propostas.

Nesse contexto, o acompanhamento não deve ser compreendido como fiscalização, mas como processo formativo e reflexivo. A direção, em conjunto com professores e equipe escolar, precisa construir mecanismos que garantam o monitoramento das metas estabelecidas, favorecendo ajustes necessários ao longo do percurso educativo.

A observação, o registro e a reflexão constituem instrumentos essenciais nesse processo. Segundo Madalena Freire (1996), o registro pedagógico possibilita compreender a prática educativa, analisar avanços e dificuldades e promover replanejamentos fundamentados. Assim, a documentação pedagógica torna-se elemento central para a avaliação institucional e para a melhoria da aprendizagem.

O acompanhamento pedagógico exige dados concretos provenientes das práticas escolares, permitindo análises consistentes sobre o desenvolvimento curricular e a efetivação dos objetivos educacionais. Nesse sentido, a supervisão assume caráter colaborativo, promovendo diálogo e construção coletiva de soluções, conforme destaca Alarcão (2014), ao defender a supervisão como processo de desenvolvimento profissional baseado na interação e na aprendizagem conjunta.

Liderança Transformadora e a Gestão da Mudança Institucional

A escola contemporânea encontra-se inserida em um cenário marcado por constantes transformações sociais, culturais e tecnológicas. Nesse contexto, a liderança escolar precisa desenvolver capacidade de adaptação e inovação.

Para Nóvoa, a profissão docente e a organização escolar demandam lideranças que favoreçam processos formativos contínuos e culturas colaborativas de trabalho, valorizando o desenvolvimento profissional coletivo (NÓVOA, s.d.). A mudança institucional inicia-se, portanto, pela transformação das práticas e concepções dos próprios líderes educacionais.

O gestor escolar atua como mediador das mudanças, criando condições para que a comunidade educativa compreenda os desafios contemporâneos e participe ativamente das transformações necessárias. Conforme aponta Aranha (2009), a liderança diretiva eficaz caracteriza-se pela construção colaborativa das decisões e pelo fortalecimento das relações interpessoais na escola.

Além disso, aspectos humanos da liderança — como empatia, escuta ativa e valorização das pessoas — contribuem para a construção de ambientes escolares mais participativos e motivadores, favorecendo o engajamento coletivo.

Transparência e Diálogo: A Escola sob o Olhar da Comunidade

A atuação da escola é permanentemente observada pela comunidade, que avalia implicitamente a qualidade das relações pedagógicas e institucionais estabelecidas. Nesse sentido, o acompanhamento das práticas docentes e institucionais não representa interferência indevida, mas responsabilidade compartilhada pela qualidade educativa.

A gestão democrática pressupõe transparência, diálogo e corresponsabilidade entre todos os sujeitos escolares. Conforme Libâneo (2015), a escola é uma organização social que precisa prestar contas à comunidade, garantindo coerência entre proposta pedagógica e prática educativa.

Ambientes pedagógicos baseados no respeito, na cooperação e na intencionalidade educativa tendem a favorecer melhores resultados de aprendizagem e convivência escolar, reforçando a importância do acompanhamento pedagógico contínuo.

Culturas Colaborativas: Fortalecendo Equipes e Autonomia Docente

A constituição de equipes colaborativas é elemento essencial para o funcionamento dámocrático da escola. A cultura escolar tradicional, muitas vezes marcada pelo individualismo, precisa dar lugar a práticas coletivas de planejamento, reflexão e ação pedagógica.

Segundo Lück (2009), liderar implica mobilizar pessoas em torno de objetivos comuns, promovendo participação, autonomia e corresponsabilidade. Para isso, a direção deve desenvolver competências relacionadas à motivação, delegação, formação continuada e reconhecimento profissional.

A liderança educativa eficaz caracteriza-se pela capacidade de:

  • orientar sem autoritarismo;
  • promover formação permanente;
  • estimular a participação coletiva;
  • reconhecer esforços e conquistas;
  • fortalecer o sentimento de pertencimento institucional.

A supervisão colaborativa, conforme Alarcão (2014), favorece o desenvolvimento profissional docente ao transformar a escola em espaço permanente de aprendizagem coletiva.

Desse modo, o líder escolar não apenas administra processos, mas constrói equipes capazes de refletir, aprender e transformar a realidade educativa.

Referências

ALARCÃO, Isabel. Desenvolvimento profissional, interação colaborativa e supervisão. In: MACHADO, Joaquim; ALVES, José Matias (org.). Coordenação, supervisão e liderança: escola, projetos e aprendizagens. Porto: Universidade Católica Editora, 2014.

ARANHA, E. M. G. O papel do diretor escolar: uma discussão colaborativa. 2009. 189 f. Dissertação (Mestrado em Linguística) — Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2009.

FREIRE, Madalena. Observação, registro e reflexão: instrumentos metodológicos I. 2. ed. São Paulo: Espaço Pedagógico, 1996.

GANDIN, Danilo. Planejamento como prática educativa. 25. ed. Petrópolis: Vozes, 2016.

LIBÂNEO, José Carlos. Organização e gestão escolar: teoria e prática. 7. ed. Goiânia: Alternativa, 2015.

LÜCK, Heloísa. Dimensões da gestão escolar e suas competências. Curitiba: Positivo, 2009.

NÓVOA, António. Formação de professores e profissão docente. [s.l.: s.n., s.d.].

VEIGA, Ilma Passos Alencastro. Projeto político-pedagógico da escola: uma construção possível. 13. ed. Campinas: Papirus, 2001.

 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

O CONSELHO DE CLASSE, SÉRIE E TERMO COMO INSTÂNCIA DE AVALIAÇÃO E CONSTRUÇÃO COLETIVA

 


O objetivo do Conselho de Classe, Série e Termo é assegurar que a escola garanta o padrão de qualidade do ensino, promovendo igualdade de condições de acesso e permanência dos alunos. A avaliação é compreendida como um processo formativo, interativo e referencial, capaz de fornecer informações qualitativas sobre os processos de aprendizagem, permitindo a construção de ações conjuntas voltadas ao desenvolvimento do estudante, conduzindo-o a novos patamares de conhecimento (MURAMOTO, 1994).

Estrutura e funcionamento

O Conselho ocorre ao final de cada bimestre ou trimestre, com duração de três a quatro dias, e conta com a participação de alunos, professores, coordenadores, vice-diretor e diretor. Este último atua como mediador, conduzindo a reunião de forma democrática e com bom senso, especialmente diante de conflitos, sem perder de vista o resgate da autoestima dos alunos (BRASIL, MEC/SEB, 2004).

Durante o Conselho:

  • Os alunos têm acesso ao rendimento escolar do período e podem manifestar opiniões e reivindicar direitos relacionados às condições de aprendizagem.
  • A equipe escolar busca valorizar cada evolução, incentivando os estudantes que apresentam dificuldades, com encaminhamentos posteriores pela coordenação e direção.
  • Os demais alunos permanecem em sala de aula sob supervisão de monitores e funcionários.

Objetivos pedagógicos

Essa prática possibilita:

  • Avaliar a postura do educador frente ao processo ensino-aprendizagem.
  • Verificar a coerência entre prática pedagógica e proposta da escola.
  • Promover aproximação e melhor relacionamento entre professor e aluno.
  • Analisar critérios de avaliação adotados pelos diferentes docentes.
  • Valorizar a visão dos alunos sobre o trabalho dos professores.
  • Levantar reivindicações para melhoria do trabalho pedagógico no período seguinte.

Os resultados permitem identificar:

  • Alunos que necessitam de recuperação paralela ou contínua.
  • Casos de infrequência e baixo rendimento, que demandam atendimento especial e convocação da família. Em caso de omissão dos responsáveis, a escola aciona o Conselho Tutelar, conforme previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente (BRASIL, Lei 8.069/1990).
  • Divergências entre práticas docentes e a proposta pedagógica da escola, orientando ajustes metodológicos e avaliativos.

Instrumentos de acompanhamento

Após o Conselho, são elaborados gráficos de rendimento e relatórios que oferecem uma visão geral do desempenho escolar, permitindo o redirecionamento da ação pedagógica. Esse procedimento fortalece a função social da escola, garantindo o direito do aluno a um ensino de qualidade, conforme estabelecido pela LDB (BRASIL, Lei 9.394/1996) e pelas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Básica (BRASIL, Resolução CNE/CEB nº 4/2010).

Considerações éticas

A prática do Conselho de Classe está fundamentada em princípios éticos e democráticos. Como destaca o Parecer CNE/CP nº 50/2023, a escola deve ser espaço de construção da cidadania, promovendo diálogo e participação efetiva da comunidade escolar. A ética, nesse contexto, só é eficaz quando cria condições para que as identidades se construam pelo desenvolvimento da sensibilidade e pelo reconhecimento do direito à igualdade (Parecer CEB nº 15/1998).

 

Referências

  • BRASIL. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente.
  • BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional.
  • BRASIL. Resolução CNE/CEB nº 4, de 13 de julho de 2010. Define Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais para a Educação Básica.
  • BRASIL. Parecer CNE/CP nº 50/2023.
  • BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. Conselhos escolares: democratização da escola e construção da cidadania. Brasília: MEC/SEB, 2004. (Caderno 1, parte II).
  • MURAMOTO, Helenice Maria Sbrogio. Ação, reflexão e diálogo: o caminhar transformador. In: FUNDAÇÃO PARA O DESENVOLVIMENTO DA EDUCAÇÃO. Escola: espaço de construção da cidadania. São Paulo: FDE, 1994. p. 133-142. (Ideias, 24).
  • PERFEITO, Cátia Deniana. Planejamento estratégico como instrumento de gestão escolar. Educação Brasileira, Brasília, v. 29, n. 58-59, p. 49-61, jan./dez. 2007.
  • SÃO PAULO (Estado). Secretaria da Educação. Programa de qualidade da escola: nota técnica. São Paulo: SEE, 2018.

 


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Planejamento Participativo na Escola: fundamentos teóricos e possibilidades de implementação

 

A Constituição Federal e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional estabelecem a gestão democrática como princípio orientador da organização educacional brasileira, destacando a participação coletiva como elemento essencial para a construção de comunidades escolares comprometidas com a qualidade da educação. Nesse contexto, o planejamento participativo configura-se como instrumento estratégico capaz de transformar diretrizes legais em práticas concretas no cotidiano escolar.

A efetivação dessa proposta exige que a escola desenvolva uma cultura colaborativa fundamentada no diálogo, na corresponsabilidade e na reflexão coletiva sobre os processos educativos. Para Ferreira (2010), a supervisão educacional contemporânea assume papel articulador, contribuindo para a construção de práticas pedagógicas democráticas e para a melhoria da qualidade do ensino. Assim, o planejamento deixa de ser uma atividade meramente administrativa e passa a constituir-se como processo formativo e participativo.

Segundo Ferreira (2001), as novas exigências da supervisão educacional demandam práticas que valorizem a participação dos sujeitos escolares, promovendo significados compartilhados e fortalecendo o trabalho coletivo. Nessa perspectiva, o gestor e o supervisor pedagógico atuam como mediadores das relações institucionais, incentivando a participação ativa da comunidade escolar na definição das ações educativas.

O planejamento participativo e sua concepção pedagógica

O planejamento participativo pode ser compreendido como um processo de organização das ações pedagógicas que considera a diversidade de perspectivas presentes na escola. Ele somente se concretiza quando há coerência entre os fundamentos teóricos, as práticas desenvolvidas e a participação efetiva dos sujeitos envolvidos.

De acordo com Gandin (2016), planejar significa analisar a realidade, definir prioridades e construir caminhos de transformação social e educacional. O planejamento, portanto, não é neutro, mas orientado por intencionalidades pedagógicas que visam promover melhorias concretas no processo de ensino e aprendizagem.

Nesse sentido, Lück (2009) destaca que a gestão escolar eficiente depende da mobilização coletiva e do desenvolvimento de competências relacionadas à liderança democrática, à tomada de decisões compartilhadas e à construção de objetivos comuns. O planejamento participativo fortalece essas dimensões ao envolver professores, estudantes, famílias e demais profissionais da escola.

Além disso, o planejamento educacional deve ser entendido como processo contínuo e sistemático. Conforme Lück (2008), planejar implica diagnosticar, executar, acompanhar e avaliar ações educativas de forma permanente, garantindo coerência entre metas institucionais e necessidades reais da comunidade escolar.

Metodologia do planejamento participativo: o ciclo de ações

Uma das formas de operacionalizar o planejamento participativo é por meio de ciclos contínuos de planejamento e avaliação, possibilitando a retroalimentação do processo educativo. Essa dinâmica aproxima-se da concepção defendida por Vasconcellos (2018), segundo a qual o planejamento constitui um movimento permanente de ação-reflexão-ação.

O ciclo pode ser organizado nas seguintes etapas:

  • identificação das necessidades e desafios institucionais;
  • formulação dos objetivos e estratégias;
  • avaliação e definição de responsabilidades;
  • monitoramento e implementação das ações;
  • exame dos resultados e compromisso coletivo.

A etapa inicial corresponde ao diagnóstico da realidade escolar, identificando problemas prioritários e metas educacionais. Posteriormente, ocorre a formulação das ações necessárias para reduzir a distância entre a situação atual e os objetivos desejados.

Przybylski (1985) ressalta que a atuação do supervisor escolar é fundamental nesse processo, pois cabe a esse profissional acompanhar, orientar e apoiar o desenvolvimento das ações pedagógicas, garantindo coerência entre planejamento e prática.

O monitoramento contínuo assegura que o planejamento não se torne apenas um documento formal. A avaliação criteriosa permite ajustes e redirecionamentos, caracterizando o planejamento como processo de melhoria contínua.

Benefícios do planejamento participativo

O planejamento participativo contribui para a melhoria dos resultados escolares ao ampliar o envolvimento dos sujeitos no processo educativo. A participação coletiva favorece a construção de diagnósticos mais completos e decisões mais adequadas à realidade institucional.

Segundo Veiga (2001), a participação constitui elemento estruturante do projeto político-pedagógico, pois fortalece o sentimento de pertencimento e responsabilidade compartilhada. Quando os profissionais participam das decisões, aumentam o compromisso e o engajamento com os objetivos educacionais.

Rangel (1980) afirma que a supervisão pedagógica deve estimular práticas reflexivas e colaborativas, promovendo o desenvolvimento profissional e institucional. Nesse sentido, o planejamento participativo amplia a compreensão dos desafios escolares e fortalece relações de cooperação entre os membros da comunidade educativa.

Entre os principais benefícios destacam-se:

  • construção coletiva de soluções pedagógicas;
  • fortalecimento do trabalho em equipe;
  • desenvolvimento do sentimento de pertencimento;
  • melhoria da comunicação institucional;
  • maior comprometimento com os resultados educacionais.

Implementação do planejamento participativo na escola

A implementação do planejamento participativo pode ser organizada em três fases principais:

1. Preparação do plano escolar

Essa etapa envolve diagnóstico institucional e análise de indicadores educacionais, como taxas de matrícula, evasão, aprovação e desempenho em avaliações internas e externas. Para Gandin (2016), o diagnóstico constitui base essencial para decisões pedagógicas fundamentadas na realidade.

2. Acompanhamento das ações

O acompanhamento sistemático garante a efetividade do planejamento. O gestor escolar assume papel de liderança pedagógica, oferecendo orientação e apoio aos participantes do processo. Ferreira (2010) destaca que a supervisão deve atuar como referência formativa, promovendo integração e clareza dos objetivos institucionais.

3. Revisão e avaliação do processo

Ao final do período letivo, realiza-se a análise dos resultados alcançados, identificando metas atingidas, parcialmente alcançadas ou não realizadas. Conforme Vasconcellos (2018), a avaliação deve possuir caráter formativo, permitindo redefinir estratégias e aperfeiçoar práticas futuras.

Considerações finais

A construção de uma cultura de planejamento participativo exige compromisso coletivo, liderança democrática e ação supervisora articuladora. Ao integrar planejamento, gestão e participação, a escola fortalece sua capacidade de enfrentar desafios educacionais e promover aprendizagens significativas.

Assim, o planejamento participativo consolida-se como instrumento essencial para a efetivação da gestão democrática, contribuindo para a qualidade social da educação e para o desenvolvimento institucional da escola.


Referências

FERREIRA, Naura Syria Carapeto (org.). Supervisão educacional para uma escola de qualidade. 4. ed. São Paulo: Cortez, 2010.

FERREIRA, Naura Syria Carapeto. Supervisão educacional: novas exigências, novos conceitos, novos significados. In: RANGEL, Mary (org.). Supervisão pedagógica: princípios e práticas. Campinas: Papirus, 2001.

GANDIN, Danilo. Planejamento como prática educativa. 25. ed. Petrópolis: Vozes, 2016.

LÜCK, Heloísa. Dimensões de gestão escolar e suas competências. Curitiba: Positivo, 2009.

LÜCK, Heloísa. Planejamento em orientação educacional. 19. ed. Petrópolis: Vozes, 2008.

PRZYBYLSKI, Egon. O supervisor escolar em ação. Porto Alegre: Sagra, 1985.

RANGEL, Mary. Supervisão pedagógica: um modelo. Petrópolis: Vozes, 1980.

VASCONCELLOS, Celso dos Santos. Planejamento. 20. ed. São Paulo: Libertad, 2018.

VEIGA, Ilma Passos Alencastro. Projeto político-pedagógico da escola: uma construção possível. 13. ed. Campinas: Papirus, 2001.

PARA PENSAR A SALA REFERÊNCIA NA EDUCAÇÃO INFANTIL

 


Uma reflexão recente sobre os materiais e brinquedos na Educação Infantil suscita uma questão igualmente fundamental: a organização, a estética, o mobiliário e a funcionalidade que a sala referência precisa oferecer para que as aprendizagens aconteçam com qualidade.

A sala referência constitui um dos principais espaços de bem-estar onde bebês e crianças vivem suas experiências cotidianas. Trata-se, intencionalmente, de sala referência — e não de sala de aula. Na Educação Infantil, supera-se a lógica da aula tradicional, priorizando experiências, interações e brincadeiras como eixos estruturantes do trabalho pedagógico, conforme indicam as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (BRASIL, 2009).

O espaço, portanto, deve ser compreendido como parte integrante do projeto pedagógico: estudado, planejado e organizado de forma intencional. O ambiente também educa, pois é nele que a memória registra aquilo que se torna significativo, constituindo experiências que permanecem nas lembranças das crianças.

Diante disso, coloca-se uma questão central:

Como compor uma sala referência que atenda às necessidades de bebês e crianças?

A reflexão volta-se para aspectos que estão ao alcance do(a) professor(a) e da equipe pedagógica na qualificação do ambiente, reconhecendo-se que determinadas questões arquitetônicas dependem da gestão institucional e de órgãos responsáveis pelas estruturas físicas. Ainda assim, mesmo diante de limitações — como o tamanho das salas ou o número de crianças — é possível repensar o espaço na perspectiva de oferecer experiências mais qualificadas.

A sala referência é compreendida como um espaço íntimo e de pertencimento: lugar de brincar, explorar, descobrir, investigar, expressar-se e, em alguns casos, descansar. Trata-se de um ambiente que acolhe bebês e crianças diariamente e que precisa ser pensado com intencionalidade ética, política e estética.

As orientações nacionais para a Educação Infantil ressaltam que as práticas cotidianas devem considerar o ambiente como elemento estruturante das experiências educativas (BRASIL; MEC/UFRGS, 2009).

Repensando concepções: espaço, infância e docência

Uma educação contemporânea pressupõe a ressignificação das concepções de criança, aprendizagem e docência na Educação Infantil. Esse movimento implica também um novo olhar sobre o espaço educativo — ainda que tais discussões estejam presentes há décadas nos estudos da área.

Bebês e crianças pequenas aprendem por meio das múltiplas linguagens e das interações estabelecidas com o ambiente, interrogando continuamente o currículo vivido (RICHTER; BARBOSA, 2010). Assim, o espaço deixa de ser apenas cenário e passa a atuar como participante ativo do processo educativo.

A sala precisa de mesa e cadeira para o(a) professor(a)?

Quando o adulto permanece sentado enquanto as crianças estão em atividade, torna-se necessário repensar a organização pedagógica. O professor da Educação Infantil atua na proximidade, observando, registrando, acompanhando e realizando intervenções quando necessárias. Sua presença exige disponibilidade, atenção e mobilidade no ambiente.

Nesse sentido, o mobiliário deve priorizar as necessidades das crianças, evitando a centralidade do adulto.

É necessário ter mesas e cadeiras para todas as crianças?

A organização baseada em mesas e cadeiras para todos tende a reforçar práticas homogêneas, nas quais todas as crianças realizam a mesma proposta simultaneamente. Avanços pedagógicos apontam para contextos de aprendizagem diversificados, nos quais as crianças escolhem onde e como participar das experiências.

Não se trata apenas de retirar móveis, mas de qualificar o espaço com intencionalidade pedagógica.

Grandes armários são necessários dentro da sala?

Materiais destinados às crianças precisam estar acessíveis. A autonomia desenvolve-se também pela possibilidade de escolha e exploração. Armários excessivos ocupam espaços que poderiam ser destinados às experiências infantis.

Prateleiras baixas e materiais visíveis favorecem a exploração, a autonomia e o protagonismo das crianças.

A sala precisa de decoração?

A escola não deve assumir características de espaços meramente decorativos. Personagens comerciais, excesso de cores e enfeites prontos frequentemente substituem aquilo que deveria ocupar o ambiente: as produções, investigações e processos vivenciados pelas próprias crianças.

O espaço educativo deve narrar experiências reais.

O espaço como educador

Diversas áreas do conhecimento — como arquitetura, design, psicologia e educação — dedicam-se ao estudo dos ambientes. Na Educação Infantil, essa discussão ganha centralidade ao reconhecer-se que o espaço comunica valores e concepções pedagógicas.

Inspiradas por abordagens pedagógicas como Montessori e Reggio Emilia, compreende-se o ambiente como um “terceiro educador”, parceiro do professor e das crianças no cotidiano educativo.

Russo (2007) destaca que educar na infância não se limita à transmissão de conteúdos, mas à criação de condições para que experiências significativas aconteçam.

Ambientes visualmente equilibrados, organizados e esteticamente coerentes favorecem concentração, autonomia e envolvimento das crianças.

O que o ambiente comunica às crianças?

A organização de um espaço pensado para bebês e crianças comunica, de forma não verbal, reconhecimento, pertencimento e confiança em suas capacidades.

Móveis acessíveis promovem autonomia; materiais naturais ampliam experiências sensoriais; espaços livres favorecem movimento e exploração. O ambiente revela, portanto, concepções pedagógicas.

Princípios para pensar a sala referência

Considerando os princípios éticos, estéticos e políticos das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (BRASIL, 2009), a sala referência deve:

·       promover liberdade de escolha e movimento;

·       contemplar múltiplas linguagens;

·       acolher singularidades e ritmos;

·       favorecer autonomia e cooperação;

·       valorizar a diversidade cultural e artística;

·       incentivar a participação das crianças nas decisões;

·       fortalecer identidade, convivência e escuta.

Na prática, isso significa:

·       mobiliários baixos e acessíveis;

·       materiais visíveis organizados em cestas ou recipientes naturais;

·       paredes habitadas pelos processos das crianças;

·       espaço livre para movimento;

·       uso intencional das cores;

·       livros de qualidade ao alcance das crianças;

·       contextos de aprendizagem variados e desafiadores;

·       participação das crianças no cuidado com o ambiente;

·       equilíbrio entre segurança e autonomia;

·       conexão com a natureza por meio de plantas e elementos naturais.

A transformação do ambiente modifica comportamentos, descentraliza a figura do adulto e fortalece o protagonismo infantil.

Um convite à reflexão

Não existe solução única ou modelo ideal. Entre o ideal, o real e o possível, cabe aos profissionais da Educação Infantil refletir, pesquisar e recriar os ambientes educativos.

A renovação do espaço, sem a transformação das práticas pedagógicas, não garante qualidade educativa. A concepção de criança, aprendizagem e educação precisa caminhar articulada à concepção de espaço.

Pensar a sala referência significa reconhecer a complexidade da Educação Infantil e compreender que pequenas mudanças podem transformar profundamente as experiências vividas pelas crianças.

 

Referências

BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Parecer CNE/CEB nº 05/2009. Revisão das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil. Brasília, 2009.

BRASIL; MEC/UFRGS. Práticas cotidianas na Educação Infantil: bases para a reflexão sobre as orientações curriculares. Brasília, 2009.

RICHTER, Sandra Regina Simonis; BARBOSA, Maria Carmen Silveira. Os bebês interrogam o currículo: as múltiplas linguagens na creche. Revista Educação, Santa Maria, v. 35, p. 85-96, 2010.

RUSSO, Danilo. De como ser professor sem dar aulas na escola da infância. In: FARIA, Ana Lúcia Goulart; MELLO, Suely Amaral (Orgs.). Territórios da infância: linguagens, tempos e relações para uma pedagogia para as crianças pequenas. Araraquara: Junqueira & Marin, 2007.