segunda-feira, 9 de março de 2026

Entre à docência e a gestão: desafios da formação de líderes na educação pública

 


A trajetória profissional dos educadores nas redes públicas de ensino pode ultrapassar os limites da sala de aula e alcançar funções de gestão educacional. A experiência docente constitui um importante elemento para a atuação em cargos de liderança, pois permite ao profissional compreender a dinâmica do cotidiano escolar e os desafios enfrentados por professores e estudantes. Entretanto, a transição da docência para a gestão exige novas competências, conhecimentos e formas de atuação, especialmente no que se refere à organização do trabalho pedagógico e à condução de políticas educacionais.

De acordo com Paro (2016), a gestão escolar deve ser compreendida como um processo coletivo e democrático, no qual o gestor exerce papel fundamental na articulação das ações educativas e na mobilização da comunidade escolar em torno de objetivos comuns. Nesse sentido, a experiência prévia em sala de aula pode contribuir para que o gestor compreenda de forma mais aprofundada as demandas pedagógicas e as condições reais do processo de ensino e aprendizagem.

A atuação em cargos como coordenação pedagógica, direção escolar ou funções técnicas nas secretarias de educação amplia a compreensão do educador sobre o funcionamento do sistema educacional. Nesse percurso, o profissional passa a desenvolver uma visão mais ampla da organização da rede de ensino, deixando de focar apenas na prática pedagógica individual para considerar a dimensão coletiva e institucional da educação. Conforme destaca Saviani (1996), o papel do gestor escolar envolve a mediação entre as demandas sociais e a organização do trabalho educativo, exigindo capacidade de análise crítica e compromisso com a transformação da realidade educacional.

Outro aspecto fundamental nesse processo é o planejamento educacional. O planejamento orienta as ações pedagógicas e administrativas, garantindo coerência entre objetivos, estratégias e resultados. Para Vasconcellos (2012), o planejamento escolar deve estar articulado ao projeto político-pedagógico da instituição, constituindo-se como instrumento de organização das práticas educativas e de construção coletiva do projeto de escola. Nesse contexto, o gestor assume papel estratégico ao promover a participação dos diferentes atores escolares na elaboração e execução dessas ações.

O Projeto Político-Pedagógico (PPP) representa um dos principais instrumentos de gestão democrática da escola. Conforme argumenta Veiga (1995), sua construção deve ocorrer de forma participativa, envolvendo professores, gestores, estudantes e comunidade, de modo a garantir que a escola responda às necessidades sociais e educacionais do contexto em que está inserida. Assim, o líder educacional precisa desenvolver habilidades de diálogo, escuta e mediação para conduzir processos coletivos de decisão.

Além das competências pedagógicas, o exercício da liderança educacional exige habilidades relacionadas à gestão de pessoas, à tomada de decisões e à articulação entre diferentes setores da administração pública. Nesse sentido, Perfeito (2007) destaca que o planejamento estratégico constitui um importante instrumento de gestão escolar, pois permite estabelecer metas, organizar recursos e acompanhar os resultados das ações desenvolvidas na instituição.

A formação de gestores educacionais, portanto, deve combinar conhecimentos teóricos e experiências práticas. As políticas de formação continuada para gestores buscam justamente ampliar as competências necessárias para o exercício dessas funções. As Diretrizes de Formação Continuada para Gestores da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo enfatizam a importância de processos formativos que articulem reflexão teórica, análise da prática e desenvolvimento de competências de liderança, planejamento e gestão pedagógica (SÃO PAULO, 2017).

Nesse contexto, a formação para a gestão educacional não deve ser compreendida apenas como preparação técnica para o exercício de cargos administrativos, mas como um processo de desenvolvimento profissional voltado à construção de lideranças comprometidas com a qualidade social da educação. Como ressalta Paro (2015), o diretor e os demais gestores escolares não podem ser vistos apenas como administradores, mas como educadores responsáveis por garantir as condições necessárias para que o processo educativo se realize de forma democrática e emancipadora.

Assim, a passagem da docência para funções de gestão representa um movimento de ampliação do olhar sobre a educação, no qual o profissional passa a atuar não apenas no âmbito da sala de aula, mas também na organização das políticas, práticas e processos que estruturam o funcionamento da escola e das redes de ensino.

Referências

PARO, Vitor. Diretor escolar: educador ou gerente? São Paulo: Cortez, 2015.

PARO, Vitor. Gestão democrática da escola pública. 4. ed. São Paulo: Cortez, 2016.

PERFEITO, Cátia Deniana. Planejamento estratégico como instrumento de gestão escolar. Educação Brasileira, Brasília, v. 29, n. 58 e 59, p. 49-61, jan./dez. 2007.

SAVIANI, Dermeval. O papel do diretor de escola numa sociedade em crise. In: SAVIANI, Dermeval. Educação: do senso comum à consciência filosófica. 11. ed. São Paulo: Autores Associados, 1996. p. 206-209.

SÃO PAULO (Estado). Secretaria da Educação. Escola de Formação e Aperfeiçoamento dos Professores do Estado de São Paulo. Diretrizes de formação continuada para gestores da SEE-SP. São Paulo: SEE/EFAP, 2017.

VASCONCELLOS, Celso dos Santos. Planejamento: projeto de ensino-aprendizagem e projeto político-pedagógico. 22. ed. São Paulo: Libertad, 2012.

VEIGA, Ilma Passos Alencastro (org.). Projeto político-pedagógico da escola: uma construção possível. Campinas: Papirus, 1995.

UFRGS. Desenvolvimento e aprendizagem. Tradução de Paulo Francisco Slomp. Porto Alegre: UFRGS – PEAD, 2009.

 

sexta-feira, 6 de março de 2026

O SECRETÁRIO MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO E O SUPERVISOR DE ENSINO: UMA PARCERIA DE SUCESSO NA GESTÃO DEMOCRÁTICA

 


Introdução

A gestão democrática da educação constitui um princípio fundamental das políticas educacionais brasileiras, sendo considerada um elemento essencial para a construção de uma escola pública de qualidade e socialmente referenciada. Nesse contexto, a atuação articulada entre os diferentes agentes do sistema educacional torna-se imprescindível para a efetivação de práticas pedagógicas e administrativas participativas. Entre esses agentes, destacam-se o secretário municipal de educação e o supervisor de ensino, cujas funções, quando exercidas de forma colaborativa, podem contribuir significativamente para o fortalecimento da gestão democrática.

O secretário municipal de educação exerce papel estratégico na formulação, implementação e acompanhamento das políticas educacionais no âmbito municipal. Já o supervisor de ensino atua como mediador entre as diretrizes do sistema educacional e a prática pedagógica desenvolvida nas escolas, contribuindo para a melhoria dos processos educativos. Assim, a parceria entre esses profissionais torna-se fundamental para promover ações que articulem planejamento, acompanhamento e avaliação das políticas educacionais.

Dessa forma, o presente texto tem como objetivo discutir a importância da parceria entre o secretário municipal de educação e o supervisor de ensino no fortalecimento da gestão democrática, destacando suas contribuições para a organização do trabalho pedagógico, para o desenvolvimento da escola e para a melhoria da qualidade da educação.

A gestão democrática na educação

A gestão democrática na educação pressupõe a participação coletiva na tomada de decisões, envolvendo gestores, professores, estudantes, famílias e comunidade. Segundo Dourado (2009), a gestão escolar deve promover processos participativos que favoreçam o diálogo, a articulação de interesses e o compromisso coletivo com a qualidade da educação.

Nesse sentido, a gestão democrática não se limita apenas à administração da escola, mas envolve também a construção de relações colaborativas entre os diferentes níveis de gestão educacional. Carvalho (2009) destaca que a democracia no espaço escolar exige práticas de participação, transparência e corresponsabilidade, elementos que fortalecem o compromisso institucional com a aprendizagem dos estudantes.

Além disso, Gomes (2005) ressalta que a qualidade da educação depende da integração entre políticas públicas, gestão educacional e práticas pedagógicas, o que exige uma atuação articulada entre os gestores do sistema educacional. Assim, o papel do secretário municipal de educação e do supervisor de ensino torna-se essencial para garantir a coerência entre as diretrizes educacionais e a realidade das escolas.

O papel do secretário municipal de educação na gestão educacional

O secretário municipal de educação é responsável pela condução das políticas educacionais no âmbito municipal, atuando no planejamento, na organização e na avaliação das ações educacionais. De acordo com Chiavenato (2014), a administração pública exige planejamento estratégico, organização de recursos e liderança para garantir o alcance dos objetivos institucionais.

No contexto educacional, o secretário deve promover políticas que assegurem o acesso, a permanência e a qualidade da educação, além de estimular a participação da comunidade escolar nos processos de decisão. Murici e Chaves (2016) destacam que a gestão para resultados na educação envolve a definição de metas, o acompanhamento das ações e a avaliação contínua dos processos educacionais.

Além disso, o planejamento estratégico constitui uma ferramenta importante para orientar as ações da secretaria de educação. Perfeito (2007) afirma que o planejamento estratégico permite alinhar objetivos institucionais às necessidades da comunidade escolar, contribuindo para a melhoria da gestão educacional.

Dessa forma, o secretário municipal de educação exerce um papel fundamental na articulação das políticas educacionais, na promoção da gestão democrática e no fortalecimento das relações institucionais entre os diferentes atores do sistema educacional.

A atuação do supervisor de ensino

O supervisor de ensino desempenha um papel essencial no acompanhamento das práticas pedagógicas e na orientação das escolas. Segundo Rangel (2015), a supervisão escolar deve atuar como um processo de mediação, contribuindo para a construção coletiva do conhecimento e para a melhoria da qualidade do ensino.

Historicamente, a supervisão escolar esteve associada a práticas de controle e fiscalização. No entanto, as concepções contemporâneas de supervisão enfatizam uma atuação colaborativa e formativa. Nesse sentido, Silva Junior e Rangel (2004) destacam que a supervisão deve promover reflexão crítica, diálogo e cooperação entre os profissionais da educação.

Alves (2011) também ressalta que o trabalho coletivo na escola é fundamental para o desenvolvimento de práticas pedagógicas inovadoras e para a construção de uma gestão democrática. Assim, o supervisor de ensino atua como um articulador do trabalho pedagógico, contribuindo para a formação continuada dos professores e para a melhoria dos processos educativos.

Muramoto (1994) reforça que a supervisão deve ser baseada em processos de ação, reflexão e diálogo, possibilitando a transformação das práticas educativas e o fortalecimento da autonomia das escolas.

A parceria entre o secretário municipal de educação e o supervisor de ensino

A articulação entre o secretário municipal de educação e o supervisor de ensino constitui um elemento estratégico para a implementação de políticas educacionais eficazes. Essa parceria possibilita alinhar as diretrizes da gestão educacional às necessidades concretas das escolas, favorecendo a construção de práticas pedagógicas mais participativas e democráticas.

De acordo com Possani, Almeida e Salmaso (2012), a ação supervisora deve estar integrada às políticas educacionais, promovendo a articulação entre gestão, planejamento e acompanhamento pedagógico. Nesse contexto, o supervisor de ensino atua como mediador entre as orientações da secretaria de educação e as práticas desenvolvidas nas unidades escolares.

Além disso, a parceria entre esses profissionais contribui para fortalecer o trabalho coletivo e a participação da comunidade escolar. Castro e Regattieri (2010) destacam que a interação entre escola, família e comunidade é essencial para o desenvolvimento de práticas educacionais mais inclusivas e democráticas.

Outro aspecto importante refere-se à promoção do protagonismo dos estudantes e da participação social. Costa e Vieira (2006) afirmam que a participação ativa dos jovens nos processos educativos contribui para a formação de cidadãos críticos e comprometidos com a sociedade.

Nesse sentido, a atuação integrada entre secretário e supervisor de ensino permite a construção de políticas educacionais mais coerentes com as demandas sociais, promovendo a democratização da gestão educacional e a melhoria da qualidade da educação.

Educação, tecnologia e novos desafios da gestão educacional

Os avanços tecnológicos e as transformações sociais têm gerado novos desafios para a gestão educacional. Almeida e Silva (2011) destacam que a integração entre currículo, tecnologia e cultura digital exige novas formas de organização do ensino e da gestão escolar.

Além disso, Santaella (2010) aponta que os processos de aprendizagem tornaram-se cada vez mais ubíquos, ocorrendo em diferentes espaços e tempos, o que exige uma atuação mais flexível e inovadora por parte dos gestores educacionais.

Nesse cenário, a parceria entre o secretário municipal de educação e o supervisor de ensino torna-se ainda mais relevante, pois possibilita a construção de estratégias educacionais capazes de integrar inovação pedagógica, tecnologia e participação democrática.

Considerações finais

A gestão democrática da educação depende da atuação articulada entre os diferentes agentes do sistema educacional. Nesse contexto, a parceria entre o secretário municipal de educação e o supervisor de ensino constitui um elemento fundamental para a construção de políticas educacionais eficazes e para o fortalecimento das práticas pedagógicas nas escolas.

O secretário municipal de educação exerce papel estratégico na formulação e implementação das políticas educacionais, enquanto o supervisor de ensino atua na mediação entre essas políticas e a realidade das escolas. Quando esses profissionais trabalham de forma colaborativa, torna-se possível promover ações que fortaleçam o planejamento educacional, o acompanhamento pedagógico e a participação da comunidade escolar.

Assim, a construção de uma gestão educacional democrática exige diálogo, cooperação e compromisso coletivo com a qualidade da educação. A parceria entre secretário e supervisor de ensino representa, portanto, uma estratégia fundamental para promover uma educação pública mais participativa, inclusiva e socialmente comprometida.

 

Referências

ALMEIDA, Maria Elizabeth B. de; SILVA, Maria da Graça Moreira da. Currículo, tecnologia e cultura digital: espaços e tempos de web currículo. Revista e-curriculum, São Paulo, v. 7, n. 1, abr. 2011.

ALVES, Nilda (coord.). Educação e supervisão: o trabalho coletivo na escola. 13. ed. São Paulo: Cortez, 2011.

CARVALHO, Maria Celeste da Silva. Progestão: como construir e desenvolver os princípios de convivência democrática na escola? Brasília: Consed, 2009.

CASTRO, Jane Margareth; REGATTIERI, Marilza (org.). Interação escola família: subsídios para práticas escolares. Brasília: UNESCO; MEC, 2010.

CHIAVENATO, Idalberto. Introdução à teoria geral da administração. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2014.

COSTA, Antonio Carlos Gomes da; VIEIRA, Adenil. Protagonismo juvenil: adolescência, educação e participação democrática. São Paulo: FTD, 2006.

DOURADO, Luiz Fernandes. Progestão: como promover, articular e envolver a ação das pessoas no processo de gestão escolar? Brasília: Consed, 2009.

GOMES, Candido Alberto. A escola de qualidade para todos: abrindo as camadas da cebola. Ensaio: Avaliação e Políticas Públicas em Educação, Rio de Janeiro, v. 13, n. 48, jul./set. 2005.

MURAMOTO, Helenice Maria Sbrogio. Ação, reflexão e diálogo: o caminhar transformador. In: FUNDAÇÃO PARA O DESENVOLVIMENTO DA EDUCAÇÃO. Escola: espaço de construção da cidadania. São Paulo: FDE, 1994.

MURICI, Izabela Lanna; CHAVES, Neuza. Gestão para resultados na educação. 2. ed. São Paulo: Falconi, 2016.

PERFEITO, Cátia Deniana. Planejamento estratégico como instrumento de gestão escolar. Educação Brasileira, Brasília, v. 29, n. 58-59, p. 49-61, jan./dez. 2007.

POSSANI, Lourdes de Fátima Paschoaletto; ALMEIDA, Júlio Gomes; SALMASO, José Luis (org.). Ação supervisora: tendências e práticas. Curitiba: CRV, 2012.

RANGEL, Mary (org.). Supervisão e gestão na escola: conceitos e práticas de mediação. 3. ed. Campinas: Papirus, 2015.

RANGEL, Mary; FREIRE, Wendel (org.). Supervisão escolar: avanços de conceitos e processos. Rio de Janeiro: Wak, 2010.

SANTAELLA, Lúcia. A aprendizagem ubíqua substitui a educação formal? Revista de Computação e Tecnologia da PUC-SP, v. 2, n. 1, 2010.

SILVA JUNIOR, Celestino; RANGEL, Mary (org.). Nove olhares sobre a supervisão. Campinas: Papirus, 2004.

 

O Papel do Dirigente Regional de Ensino no Sistema Educacional Paulista

 


A organização e a gestão do sistema educacional público demandam estruturas administrativas capazes de articular políticas educacionais, orientar práticas pedagógicas e assegurar a qualidade do ensino nas unidades escolares. Nesse contexto, destaca-se o papel do Dirigente Regional de Ensino, responsável pela coordenação das ações educacionais no âmbito das Diretorias de Ensino do Estado de São Paulo. Tal função envolve atribuições administrativas, pedagógicas e institucionais que exigem competências de liderança, mediação e planejamento educacional.

No Estado de São Paulo, a atuação das Diretorias de Ensino está fundamentada em dispositivos legais que estruturam o funcionamento da Secretaria da Educação. O Decreto nº 57.141/2011 reorganiza a Secretaria da Educação e define as atribuições das Diretorias de Ensino, estabelecendo-as como instâncias intermediárias entre a administração central e as unidades escolares (SÃO PAULO, 2011). Nesse contexto, cabe ao Dirigente Regional de Ensino coordenar, supervisionar e acompanhar a implementação das políticas educacionais nas escolas da rede estadual.

No que se refere à carreira do magistério paulista e à organização das funções educacionais, a Lei Complementar nº 836/1997 institui o plano de carreira, vencimentos e salários dos profissionais do magistério da rede estadual (SÃO PAULO, 1997). Posteriormente, a Lei Complementar nº 1.374/2022 promoveu atualizações importantes na estrutura da carreira docente e na organização das funções educacionais, influenciando diretamente a constituição das equipes pedagógicas e administrativas das escolas e Diretorias de Ensino (SÃO PAULO, 2022).

No âmbito das orientações administrativas e pedagógicas da rede estadual, a Resolução SE nº 50/2018 estabelece diretrizes relacionadas à organização das atividades pedagógicas e administrativas, reforçando a importância da atuação das equipes gestoras no acompanhamento do processo educativo (SÃO PAULO, 2018). Mais recentemente, a Resolução Seduc nº 41/2023 e a Resolução Seduc nº 162/2025 ampliam as orientações referentes à organização e ao funcionamento das instâncias da rede estadual de ensino, consolidando procedimentos relacionados à gestão educacional e ao acompanhamento do trabalho pedagógico nas escolas (SÃO PAULO, 2023; 2025).

Sob a perspectiva teórica, a literatura educacional destaca que a supervisão e a gestão educacional não devem restringir-se a funções meramente burocráticas, mas constituir-se como práticas formativas e mediadoras do processo educativo. Nesse sentido, Alves (2011) afirma que o trabalho coletivo constitui um dos elementos centrais para a construção de práticas pedagógicas democráticas, uma vez que favorece a reflexão compartilhada entre os profissionais da educação e fortalece a construção de projetos educativos institucionais.

De forma complementar, Muramoto (1994) enfatiza que a ação educativa deve ser compreendida como um processo dinâmico que articula ação, reflexão e diálogo. Para a autora, o diálogo constitui elemento fundamental na construção de processos educativos transformadores, pois possibilita a análise crítica das práticas pedagógicas e o desenvolvimento de estratégias coletivas de melhoria da qualidade do ensino.

Nesse sentido, a atuação do Dirigente Regional de Ensino deve fundamentar-se em princípios democráticos de gestão. A postura democrática implica a construção de processos decisórios participativos, baseados no diálogo permanente com diretores, supervisores, professores coordenadores e demais profissionais da educação. Conforme argumenta Rangel (2015), a supervisão educacional contemporânea caracteriza-se pela mediação de processos educativos e pela construção coletiva de soluções para os desafios enfrentados no cotidiano escolar.

O trabalho coletivo também se configura como elemento estruturante da gestão educacional nas Diretorias de Ensino. A elaboração de projetos educacionais regionais, a definição de metas para o conjunto das escolas e o acompanhamento sistemático dos resultados educacionais constituem estratégias relevantes para a melhoria da qualidade do ensino. Nessa perspectiva, Silva Junior e Rangel (2004) destacam que a supervisão educacional deve promover múltiplos olhares sobre a realidade escolar, possibilitando análises mais amplas e intervenções pedagógicas mais consistentes.

Outro aspecto fundamental da atuação do Dirigente Regional de Ensino refere-se à competência pedagógica. Embora a função envolva responsabilidades administrativas relevantes, sua dimensão pedagógica deve ocupar lugar central na condução das políticas educacionais regionais. De acordo com Possani, Almeida e Salmaso (2012), a ação supervisora precisa articular processos de gestão, acompanhamento pedagógico e formação continuada dos profissionais da educação, contribuindo para o aprimoramento das práticas pedagógicas nas escolas.

Além disso, a atuação do Dirigente Regional de Ensino envolve a articulação entre escola e comunidade. A escola pública constitui um espaço de formação cidadã e de construção social do conhecimento, sendo fundamental o diálogo permanente com as famílias e com a sociedade. Nesse sentido, a gestão educacional deve promover estratégias de participação e corresponsabilidade social no desenvolvimento das políticas educacionais.

Outro elemento relevante refere-se à capacidade de planejamento estratégico. A gestão educacional exige a elaboração de projetos e ações que considerem as especificidades das escolas, os indicadores educacionais e as metas estabelecidas pelas políticas públicas. Nesse contexto, a liderança educacional deve superar uma atuação meramente burocrática, orientando-se por uma visão de longo prazo que favoreça o desenvolvimento educacional da região.

Dessa forma, compreende-se que o papel do Dirigente Regional de Ensino ultrapassa a dimensão administrativa, configurando-se como liderança educacional responsável pela articulação entre políticas públicas, gestão pedagógica e desenvolvimento institucional das escolas. Sua atuação, fundamentada em princípios democráticos, no trabalho coletivo e na mediação pedagógica, constitui elemento essencial para a consolidação de um sistema educacional comprometido com a qualidade social da educação.

Referências

ALVES, Nilda (coord.). Educação e supervisão: o trabalho coletivo na escola. 13. ed. São Paulo: Cortez, 2011.

MURAMOTO, Helenice Maria Sbrogio. Ação, reflexão e diálogo: o caminhar transformador. In: FUNDAÇÃO PARA O DESENVOLVIMENTO DA EDUCAÇÃO. Escola: espaço de construção da cidadania. São Paulo: FDE, 1994. p. 133-142. (Ideias, 24).

POSSANI, Lourdes de Fátima Paschoaletto; ALMEIDA, Júlio Gomes; SALMASO, José Luis (org.). Ação supervisora: tendências e práticas. Curitiba: CRV, 2012.

RANGEL, Mary (org.). Supervisão e gestão na escola: conceitos e práticas de mediação. 3. ed. Campinas: Papirus, 2015.

RANGEL, Mary; FREIRE, Wendel (org.). Supervisão escolar: avanços de conceitos e processos. Rio de Janeiro: Wak, 2010.

SÃO PAULO (Estado). Decreto nº 57.141, de 18 de julho de 2011. Reorganiza a Secretaria da Educação e dá providências correlatas. Diário Oficial do Estado de São Paulo, São Paulo, 19 jul. 2011.

SÃO PAULO (Estado). Lei Complementar nº 836, de 30 de dezembro de 1997. Institui Plano de Carreira, Vencimentos e Salários para os integrantes do Quadro do Magistério da Secretaria da Educação. Diário Oficial do Estado de São Paulo, São Paulo, 31 dez. 1997.

SÃO PAULO (Estado). Lei Complementar nº 1.374, de 30 de março de 2022. Altera dispositivos da Lei Complementar nº 836/1997 e reorganiza a estrutura da carreira do magistério paulista. Diário Oficial do Estado de São Paulo, São Paulo, 31 mar. 2022.

SÃO PAULO (Estado). Secretaria da Educação. Resolução SE nº 50, de 7 de agosto de 2018. Dispõe sobre procedimentos e orientações para a organização das atividades pedagógicas e administrativas da rede estadual de ensino. Diário Oficial do Estado de São Paulo, São Paulo, 8 ago. 2018.

SÃO PAULO (Estado). Secretaria da Educação. Resolução SEDUC nº 41, de 2023. Estabelece diretrizes e procedimentos para a organização das atividades pedagógicas e administrativas no âmbito da rede estadual de ensino. Diário Oficial do Estado de São Paulo, São Paulo, 2023.

SÃO PAULO (Estado). Secretaria da Educação. Resolução SEDUC nº 162, de 2025. Dispõe sobre normas e orientações complementares para a organização e funcionamento das unidades e instâncias da rede estadual de ensino. Diário Oficial do Estado de São Paulo, São Paulo, 2025.

SILVA JUNIOR, Celestino; RANGEL, Mary (org.). Nove olhares sobre a supervisão. Campinas: Papirus, 2004. Ebook.

 

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Letramento Matemático na Educação Infantil: fundamentos pedagógicos, intencionalidade docente e práticas investigativas à luz das políticas educacionais contemporâneas

 

 


1. Introdução e Conceitos Fundamentais

O letramento matemático na Educação Infantil compreende um processo formativo que ultrapassa a aprendizagem mecânica de números e operações, constituindo-se como a inserção da criança em práticas sociais que envolvem a matemática enquanto linguagem cultural, simbólica e interpretativa do mundo. Nessa perspectiva, a criança é reconhecida como sujeito ativo na construção de conhecimentos, utilizando conceitos matemáticos para observar, interpretar, comunicar e agir em diferentes situações do cotidiano.


A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e o Currículo Paulista orientam que a matemática, na Educação Infantil, não se organiza como disciplina isolada, mas integra os Campos de Experiência, sendo vivenciada por meio de interações, brincadeiras e experiências significativas. Tal concepção é reafirmada pela Resolução CNE/CEB nº 7/2025, que fortalece a centralidade das experiências infantis e da aprendizagem contextualizada, respeitando os direitos de aprendizagem — conviver, brincar, participar, explorar, expressar e conhecer-se.

O Decreto nº 12.686/2025, ao instituir diretrizes nacionais voltadas à qualidade e equidade educacional, reforça a necessidade de práticas pedagógicas inclusivas, contextualizadas e fundamentadas na garantia de oportunidades equitativas de aprendizagem desde a primeira etapa da Educação Básica. Em consonância, a Política Nacional de Qualidade e Equidade na Educação Infantil destaca a importância de ambientes educativos que promovam investigações, interações e múltiplas linguagens, entre elas a matemática.

Nesse contexto, a intencionalidade pedagógica assume papel central: o professor deixa de atuar como transmissor de conteúdos e passa a organizar contextos investigativos nos quais a matemática emerge de forma significativa, lúdica e socialmente situada.

2. Campos de Experiência e Percurso Investigativo

As diretrizes curriculares atuais reconhecem a criança como sujeito de direitos, curiosa, investigativa e produtora de cultura. O letramento matemático desenvolve-se quando a criança explora o ambiente, formula hipóteses, estabelece relações e constrói significados a partir das experiências vividas.

Nos Campos de Experiência, especialmente em “Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações”, a matemática manifesta-se nas ações cotidianas: comparar, medir, organizar, classificar, estimar e resolver problemas reais.

A atuação docente consiste em acompanhar e ampliar o percurso investigativo infantil, formulando perguntas abertas que incentivem o raciocínio lógico, a argumentação e a autonomia intelectual. Conforme orienta a Política Nacional de Qualidade e Equidade na Educação Infantil, a prática pedagógica deve assegurar contextos que favoreçam a participação ativa das crianças, respeitando suas singularidades e promovendo equidade nos processos de aprendizagem.

3. Números e Sistema de Numeração na Educação Infantil

O trabalho com números na infância deve priorizar a construção de significados, diferenciando a simples recitação da sequência numérica da compreensão da contagem como correspondência entre elementos e quantidades.

3.1 Contagem significativa

A criança avança quando compreende que cada número representa uma quantidade específica, estabelecendo relações entre objetos e numerais em situações concretas.

3.2 Funções sociais do número

Em consonância com a BNCC e o Currículo Paulista, o número deve ser explorado em seus diferentes usos sociais, tais como:

  • ·       número como código (telefones, endereços);
  • ·       número como ordem (posição em filas ou jogos);
  • ·       número como medida (tempo, altura, peso);
  • ·       número como quantidade (distribuições e comparações).

3.3 Sistema de Numeração Decimal

A introdução ao sistema decimal ocorre por meio de experiências manipulativas e contextualizadas, envolvendo agrupamentos, comparações e organização de coleções, sem antecipação de formalizações próprias do Ensino Fundamental, respeitando os princípios do desenvolvimento infantil previstos na Resolução CNE/CEB nº 7/2025.

4. Propostas Didáticas e Registros na Construção do Pensamento Matemático

A documentação pedagógica constitui elemento essencial para acompanhar o desenvolvimento do pensamento matemático infantil.

4.1 Representações numéricas

Antes da escrita convencional dos números, as crianças elaboram registros próprios — desenhos, marcas gráficas, símbolos e esquemas — que devem ser reconhecidos como formas legítimas de expressão e raciocínio matemático.

4.2 Situações-problema contextualizadas

O letramento matemático fortalece-se por meio de desafios reais e significativos, tais como:

  • ·       organização de materiais;
  • ·       distribuição de objetos;
  • ·       planejamento de brincadeiras;
  • ·       resolução de situações cotidianas (ex.: quantidade de copos necessária para o grupo).

Essas situações favorecem a elaboração de estratégias pessoais, a argumentação e a construção coletiva do conhecimento, alinhando-se aos princípios da equidade e da aprendizagem ativa defendidos pelo Decreto nº 12.686/2025.

5. Planejamento Pedagógico e Avaliação Formativa

5.1 Planejamento intencional e contextualizado

O planejamento docente deve considerar os interesses das crianças, seus contextos socioculturais e as experiências do cotidiano, integrando práticas como:

  • ·       jogos matemáticos;
  • ·       uso de calendários;
  • ·       organização de rotinas;
  • ·       partilha de alimentos;
  • ·       exploração de espaços e materiais.

A intencionalidade pedagógica assegura que a matemática esteja presente nas experiências diárias sem escolarização precoce ou práticas mecanizadas.

5.2 Avaliação na Educação Infantil

Conforme a Resolução CNE/CEB nº 7/2025 e a Política Nacional de Qualidade e Equidade na Educação Infantil, a avaliação possui caráter formativo, processual e qualitativo, fundamentada em:

  • ·       observação sistemática;
  • ·       registros pedagógicos;
  • ·       documentação das hipóteses infantis;
  • ·       acompanhamento do desenvolvimento individual.

Não se utilizam provas ou classificações, mas análises que orientam o planejamento e garantem o direito de aprendizagem de todas as crianças.

6. Princípios Metodológicos do Letramento Matemático

A prática pedagógica orientada pelas políticas educacionais atuais sustenta-se em três princípios estruturantes:

6.1 Matemática na vida cotidiana

A aprendizagem parte de situações reais, utilizando elementos do contexto infantil, como idade, datas comemorativas, quantidades familiares e experiências vividas.

6.2 O valor do erro como processo formativo

As incorreções são compreendidas como parte constitutiva da aprendizagem, revelando hipóteses e modos de pensar das crianças, favorecendo intervenções pedagógicas significativas.

6.3 Protagonismo infantil

A criança assume papel ativo na investigação e resolução de problemas, enquanto o professor atua como mediador, organizador de experiências e incentivador do pensamento crítico.

Considerações Finais

O letramento matemático na Educação Infantil, à luz da BNCC, do Currículo Paulista, do Decreto nº 12.686/2025, da Resolução CNE/CEB nº 7/2025 e da Política Nacional de Qualidade e Equidade na Educação Infantil, consolida-se como prática pedagógica que promove equidade, participação e aprendizagem significativa. Ao integrar a matemática às experiências cotidianas, respeitando os tempos e modos de aprender das crianças, a escola contribui para a formação de sujeitos críticos, investigativos e capazes de interpretar o mundo por meio de múltiplas linguagens.