sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Letramento Matemático na Educação Infantil: fundamentos pedagógicos, intencionalidade docente e práticas investigativas à luz das políticas educacionais contemporâneas

 

 


1. Introdução e Conceitos Fundamentais

O letramento matemático na Educação Infantil compreende um processo formativo que ultrapassa a aprendizagem mecânica de números e operações, constituindo-se como a inserção da criança em práticas sociais que envolvem a matemática enquanto linguagem cultural, simbólica e interpretativa do mundo. Nessa perspectiva, a criança é reconhecida como sujeito ativo na construção de conhecimentos, utilizando conceitos matemáticos para observar, interpretar, comunicar e agir em diferentes situações do cotidiano.


A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e o Currículo Paulista orientam que a matemática, na Educação Infantil, não se organiza como disciplina isolada, mas integra os Campos de Experiência, sendo vivenciada por meio de interações, brincadeiras e experiências significativas. Tal concepção é reafirmada pela Resolução CNE/CEB nº 7/2025, que fortalece a centralidade das experiências infantis e da aprendizagem contextualizada, respeitando os direitos de aprendizagem — conviver, brincar, participar, explorar, expressar e conhecer-se.

O Decreto nº 12.686/2025, ao instituir diretrizes nacionais voltadas à qualidade e equidade educacional, reforça a necessidade de práticas pedagógicas inclusivas, contextualizadas e fundamentadas na garantia de oportunidades equitativas de aprendizagem desde a primeira etapa da Educação Básica. Em consonância, a Política Nacional de Qualidade e Equidade na Educação Infantil destaca a importância de ambientes educativos que promovam investigações, interações e múltiplas linguagens, entre elas a matemática.

Nesse contexto, a intencionalidade pedagógica assume papel central: o professor deixa de atuar como transmissor de conteúdos e passa a organizar contextos investigativos nos quais a matemática emerge de forma significativa, lúdica e socialmente situada.

2. Campos de Experiência e Percurso Investigativo

As diretrizes curriculares atuais reconhecem a criança como sujeito de direitos, curiosa, investigativa e produtora de cultura. O letramento matemático desenvolve-se quando a criança explora o ambiente, formula hipóteses, estabelece relações e constrói significados a partir das experiências vividas.

Nos Campos de Experiência, especialmente em “Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações”, a matemática manifesta-se nas ações cotidianas: comparar, medir, organizar, classificar, estimar e resolver problemas reais.

A atuação docente consiste em acompanhar e ampliar o percurso investigativo infantil, formulando perguntas abertas que incentivem o raciocínio lógico, a argumentação e a autonomia intelectual. Conforme orienta a Política Nacional de Qualidade e Equidade na Educação Infantil, a prática pedagógica deve assegurar contextos que favoreçam a participação ativa das crianças, respeitando suas singularidades e promovendo equidade nos processos de aprendizagem.

3. Números e Sistema de Numeração na Educação Infantil

O trabalho com números na infância deve priorizar a construção de significados, diferenciando a simples recitação da sequência numérica da compreensão da contagem como correspondência entre elementos e quantidades.

3.1 Contagem significativa

A criança avança quando compreende que cada número representa uma quantidade específica, estabelecendo relações entre objetos e numerais em situações concretas.

3.2 Funções sociais do número

Em consonância com a BNCC e o Currículo Paulista, o número deve ser explorado em seus diferentes usos sociais, tais como:

  • ·       número como código (telefones, endereços);
  • ·       número como ordem (posição em filas ou jogos);
  • ·       número como medida (tempo, altura, peso);
  • ·       número como quantidade (distribuições e comparações).

3.3 Sistema de Numeração Decimal

A introdução ao sistema decimal ocorre por meio de experiências manipulativas e contextualizadas, envolvendo agrupamentos, comparações e organização de coleções, sem antecipação de formalizações próprias do Ensino Fundamental, respeitando os princípios do desenvolvimento infantil previstos na Resolução CNE/CEB nº 7/2025.

4. Propostas Didáticas e Registros na Construção do Pensamento Matemático

A documentação pedagógica constitui elemento essencial para acompanhar o desenvolvimento do pensamento matemático infantil.

4.1 Representações numéricas

Antes da escrita convencional dos números, as crianças elaboram registros próprios — desenhos, marcas gráficas, símbolos e esquemas — que devem ser reconhecidos como formas legítimas de expressão e raciocínio matemático.

4.2 Situações-problema contextualizadas

O letramento matemático fortalece-se por meio de desafios reais e significativos, tais como:

  • ·       organização de materiais;
  • ·       distribuição de objetos;
  • ·       planejamento de brincadeiras;
  • ·       resolução de situações cotidianas (ex.: quantidade de copos necessária para o grupo).

Essas situações favorecem a elaboração de estratégias pessoais, a argumentação e a construção coletiva do conhecimento, alinhando-se aos princípios da equidade e da aprendizagem ativa defendidos pelo Decreto nº 12.686/2025.

5. Planejamento Pedagógico e Avaliação Formativa

5.1 Planejamento intencional e contextualizado

O planejamento docente deve considerar os interesses das crianças, seus contextos socioculturais e as experiências do cotidiano, integrando práticas como:

  • ·       jogos matemáticos;
  • ·       uso de calendários;
  • ·       organização de rotinas;
  • ·       partilha de alimentos;
  • ·       exploração de espaços e materiais.

A intencionalidade pedagógica assegura que a matemática esteja presente nas experiências diárias sem escolarização precoce ou práticas mecanizadas.

5.2 Avaliação na Educação Infantil

Conforme a Resolução CNE/CEB nº 7/2025 e a Política Nacional de Qualidade e Equidade na Educação Infantil, a avaliação possui caráter formativo, processual e qualitativo, fundamentada em:

  • ·       observação sistemática;
  • ·       registros pedagógicos;
  • ·       documentação das hipóteses infantis;
  • ·       acompanhamento do desenvolvimento individual.

Não se utilizam provas ou classificações, mas análises que orientam o planejamento e garantem o direito de aprendizagem de todas as crianças.

6. Princípios Metodológicos do Letramento Matemático

A prática pedagógica orientada pelas políticas educacionais atuais sustenta-se em três princípios estruturantes:

6.1 Matemática na vida cotidiana

A aprendizagem parte de situações reais, utilizando elementos do contexto infantil, como idade, datas comemorativas, quantidades familiares e experiências vividas.

6.2 O valor do erro como processo formativo

As incorreções são compreendidas como parte constitutiva da aprendizagem, revelando hipóteses e modos de pensar das crianças, favorecendo intervenções pedagógicas significativas.

6.3 Protagonismo infantil

A criança assume papel ativo na investigação e resolução de problemas, enquanto o professor atua como mediador, organizador de experiências e incentivador do pensamento crítico.

Considerações Finais

O letramento matemático na Educação Infantil, à luz da BNCC, do Currículo Paulista, do Decreto nº 12.686/2025, da Resolução CNE/CEB nº 7/2025 e da Política Nacional de Qualidade e Equidade na Educação Infantil, consolida-se como prática pedagógica que promove equidade, participação e aprendizagem significativa. Ao integrar a matemática às experiências cotidianas, respeitando os tempos e modos de aprender das crianças, a escola contribui para a formação de sujeitos críticos, investigativos e capazes de interpretar o mundo por meio de múltiplas linguagens.

 

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