As organizações sociais transformam-se à medida que surgem
pressões externas decorrentes da insatisfação popular com as contradições da
realidade existente. Nesse cenário, a escola pública contemporânea tem sido
alvo de intensas cobranças por parte da sociedade, que manifesta
descontentamento em relação aos resultados alcançados pelas instituições de
ensino. No interior da escola, esse panorama evidencia a urgência de repensar
as práticas de gestão e a organização do trabalho pedagógico, superando o
modelo de administração puramente empresarial e mercadológico. Como assevera
Paro (2016), a especificidade da gestão escolar reside no fato de que seu fim
último é a formação humana, o que impede a transposição direta de métodos
burocráticos capitalistas, exigindo uma estrutura que propicie a emancipação
dos sujeitos e não a sua domesticação.
Cada escola possui singularidades culturais e sociais e, por
essa razão, deve construir coletivamente seu projeto de desenvolvimento,
definindo alternativas de ação que dialoguem com a sua realidade tangível. A
busca pela qualidade social da educação exige que gestores, professores,
estudantes, famílias e demais funcionários atuem de forma colaborativa,
compartilhando responsabilidades e decisões. De acordo com Libâneo (2013), a
organização da escola não serve apenas como suporte técnico para as aulas, mas
funciona como um autêntico ambiente educativo, onde as práticas organizacionais
e as relações humanas exercem um papel pedagógico direto na formação cidadã.
Nesse sentido, a gestão democrática do ensino público constitui
um dos principais instrumentos políticos para fortalecer a escola. Ela
pressupõe a participação efetiva da comunidade escolar nos processos decisórios
e está fundamentada em princípios basilares, tais como: autonomia
administrativa, financeira e pedagógica; livre organização dos segmentos;
centralidade dos órgãos colegiados; transparência pública; descentralização das
decisões; valorização dos profissionais da educação; e responsabilidade social
no uso dos recursos públicos. Sob a ótica de Lück (2013), a transição de uma
administração burocrática para uma gestão democrático-participativa requer a
superação do poder centralizado e o desenvolvimento de uma liderança
compartilhada, capaz de mobilizar o coletivo em prol de objetivos educacionais
comuns.
A descentralização, entretanto, não deve ser entendida como mera
transferência de obrigações e encargos do Estado para a escola. Ao contrário,
trata-se de um processo de fortalecimento institucional que amplia a capacidade
da escola de definir sua identidade e reorganizar suas práticas. Esse movimento
rompe com modelos rigidamente centralizadores, historicamente marcados por uma
administração técnico-burocrática herdada do positivismo. Gadotti (2014)
pondera que a autonomia não se confunde com o isolamento ou com a ausência de
normas, mas representa a capacidade autogestionária da comunidade de instituir
seu próprio projeto político-pedagógico, ligando a escola às transformações
macroestruturais da sociedade.
Diante disso, a descentralização do sistema de ensino implica a
reorganização das competências e dos espaços de atuação de governos,
secretarias de educação e unidades escolares, demandando novos mecanismos de
controle social. Para que esse processo não resulte em um esvaziamento do papel
regulador do Estado que tem o dever constitucional de assegurar o financiamento
e as condições materiais de funcionamento, as instâncias de participação
precisam estar profundamente consolidadas. A participação, aqui, ultrapassa o
caráter meramente formal ou consultivo. Inspirando-se no pensamento de Paulo
Freire (1996), a participação autêntica fundamenta-se no diálogo dialógico e na
conscientização, convertendo os atores escolares de meros executores de ordens
em sujeitos históricos ativos de sua própria práxis pedagógica.
Essa reorganização das relações de poder na escola e a
efetivação das práticas participativas encontram um eixo sustentador
indispensável na formação
continuada em contexto. Entendida como um processo permanente de
reflexão sobre a própria prática no ambiente escolar, a formação em contexto
torna-se o elo articulador entre a teoria pedagógica e a gestão democrática. Ao
transformar o cotidiano escolar em um espaço de pesquisa e debate coletivo, os
profissionais da educação analisam os desafios reais da comunidade, propõem
soluções conjuntas e subsidiam teoricamente as decisões tomadas nos órgãos
colegiados. Desse modo, a formação docente deixa de ser um evento burocrático e
individualizado para se tornar uma prática social, coletiva e colaborativa,
fortalecendo a autonomia e a corresponsabilidade social pela melhoria da
qualidade do ensino.
Em suma, a democratização da gestão escolar promove uma cultura
institucional baseada na cooperação, superando a responsabilização puramente
individual pelo fracasso escolar. Não existem fórmulas preestabelecidas ou
modelos padronizados para a sua implementação; cada instituição precisa trilhar
seu próprio percurso a partir de sua realidade vivida. A construção da escola
pública de qualidade social constitui, portanto, um ato político e pedagógico
contínuo, visceralmente comprometido com a consolidação de processos
participativos, com o desenvolvimento da autonomia e com os princípios
fundamentais da cidadania, da equidade e da justiça social.
Referências
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática
educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
GADOTTI, Moacir. Gestão democrática da escola pública. 12. ed. São
Paulo: Ática, 2014.
LIBÂNEO, José Carlos. Organização e gestão da escola: teoria e prática. 6.
ed. São Paulo: Heccus, 2013.
LÜCK, Heloísa. A gestão participativa na escola. Petrópolis: Vozes,
2013.
PARO, Vitor Henrique. Gestão democrática da escola pública. 4. ed. São Paulo:
Cortez, 2016.
Nenhum comentário:
Postar um comentário