Acordei e decidi que seria esse o dia de
dizer Não. Olhei minha cara no espelho, a boca travada. Os lábios
particularmente finos e os olhos. Desviei o olhar dos meus olhos desconfiados, negativos.
Não serei agora a brasileira cordial. Agora não. Sinto-me livre para fracassar,
não é de Bataille? Livre para recusar.
Manhã de sol. A cor do Não deve ser cinza. Ou
castanha ou preta e o céu estava ardentemente azul. Mas era visível nos
edifícios mais altos a sombra da coroa de névoa cinza-lilás da poluição. A
névoa que habita o nosso horizonte – eu disse horizonte? Mas podemos nesta
cidade falar em horizonte? Pensei nos cariocas que têm o misterioso mar lá
longe formando com o céu uma linha nítida. Tão pura, até gaivotas. Até barcos.
Por isso mais alegres do que nós esses cariocas?
Pensamentos esfiapados, poluídos. Dei ao chofer do
táxi o endereço do banco, odeio bancos e estou sempre às voltas com bancos, nem
que fosse a dona de algum. O trânsito difícil. A vida.
- Esse jogo foi ontem, avisou o chofer diminuindo
no painel do carro o volume do rádio. A senhora gosta de futebol?
- Não.
Ele girou o botão, estava bem humorado. Estacionou
no discurso de um vereador mas logo passou para um música sertaneja. Fez
considerações sobre a safadeza dos políticos, sobre a inflação, mas sempre num
tom de quem não levava nada disso muito a sério.
O menino encardido bateu no vidro da janela, vendia
chicletes. Não, respondi e ele insistiu oferecendo caramelos de chocolate. Quem
sabe os de leite?!... Dia de dizer Não é dia de dizer Não.
O semáforo da Avenida Paulista devia estar
descontrolado porque a nossa parada nessa esquina foi longa demais, tão longa
que quando vi o vendedor de muletas se aproximar por entre as filas de carros,
calculei que não ia dar tempo de nos alcançar. Capengava mas era jovem,
movia-se ligeiríssimo com suas muletas. Sacudia na mão veemente um maçarote de
papéis coloridos, bilhetes de loteria? Veio animado, rindo. Olhei depressa o
sinal ainda vermelho, ele teria a oportunidade de me oferecer sua mercadoria. E
eu, de recusar essa mercadoria, não eram bilhetes, eram envelopes de todas as
cores com o papel dobrado dentro. A mão varou a fresta da janela do carro com o
leque colorido, incrível como podia caber na pequena mão tantos envelopes, um
arco-íris intenso. E o perfume.
- Cartas perfumadas! Tem perfume de rosam de
jasmim, de violeta, sinta aqui, tia. Coisa fina.
Recuei. Não gosto que me chamem de tia. Não sou sua
tia, respondi lá no fundo. E o forte perfume enjoativo de tão doce. Desviei o
olhar para as muletas, uma de cada lado sustentando o tronco frágil. Pensei na
minha mãe com as mãos sujas de terra, sustentando com as pequenas estacas as
plantas mais delicadas, aquelas que vergavam. A lembrança abrandou meu coração.
- Não tenho a quem escrever, moço.
Ele destacou do leque um envelope azul.
- Pro namorado, uai! Pra algum amigo... Olha aí,
pode levar estes dois pelo preço de um, perfume de rosa.
O sinal ainda vermelho. E a intimidade que de repente
se armou ali, o chofer sorria com ar cumplice. E se eu acabasse com aquilo
comprando simplesmente os tais envelopes milagrosos, ele falava agora em
milagre, um amor por mais distante que estivesse voltaria imediatamente se
recebesse a carta roxa com perfume de violeta. Cheguei a abrir a bolsa ou
pensei apenas em abri-la mas o sinal lá na frente já estava verde. Estouraram
as buzinas e a nossa fila de carros que começava a avançar enérgica. A mão
alada era um pássaro saindo pela fresta do vidro. Fechei a janela. Não, hoje
não, outro dia, quem sabe? Hoje não. Quando me voltei, ainda vi o vendedor com
suas muletas e sua agilidade, com suas cartas perfumadas e sua esperança.
Infiltrara-se na trilha paralela de carros e tentava agora convencer a moça do
jipe.
- O perfume era bom, disse o chofer com voz
nostálgica, com uma ponta, talvez, de censura. Ou a desgostosa censura estava
apenas em mim? A ideia é boa, dona, essa gente inventa tudo.
Pedi-lhe que me esperasse e entrei no banco. Os
guichês congestionados e a paciência, mas por onde andavam aqueles bancários
tão gentis que apareciam nos anúncios de televisão. Teria tido tempo, sim. De
comprar ao menos o envelope amarelo que propositalmente ele deixou cair no chão
do carro. Mais guichês. Na volta, poderia passar pela mesma esquina e compraria
as tais maravilhas, resolvi e me espantei, mas o que é isso? Remorso? O dia do
Não já estava cortado pelo meio, descobri e me senti leve com a descoberta. A
coragem do Não era a outra face da medalha do Sim? Ah, para o diabo as
interpretações. Compraria na volta as cartas perfumadas e o vendedor ficaria
contente e o chofer ficaria contente também eu – não era mais fácil? Compraria
as cartas com seu perfume inocente, provisório: guardaria na gaveta o
provisório jardim de papel.
- Volte pelo mesmo caminho, por favor, pedi ao
chofer quando entrei no táxi.
- Mas temos então que fazer aquele contorno, está
vendo?
- Pois faça, pegue o outro lado da avenida que eu
queria encontrar de novo o vendedor das cartas, desta vez compro algumas.
- O perfume era bom.
Quando o carro parou na mesma esquina com o sinal
vermelho, abri a bolsa e o vidro, a procurar ansiosamente o vendedor com suas
muletas, mas onde estaria? O chofer também quis ajudar, solidário, chegou a
entreabrir a porta, onde?... Vi o menino dos limões, vi o moço das cerejas e
mais adiante o jornaleiro. Quando o carro deu a partida, ainda fiquei
procurando, vi a mendiga. Vi o vendedor de pêssegos mas o vendedor das cartas
perfumadas, esse eu não vi mais.
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